Sorriu para si diante do velho
espelho do camarim. As rugas de seu rosto, os pelos que nasciam no contorno de
sua mandíbula, e a maquiagem gasta da noite inteira lhe davam um ar degradante,
decadente. Passou o algodão sobre as pálpebras suavemente, como sempre fazia,
num ritmo cerimonial. Sorria triste para um amor que não podia obedecer e, por
detrás dos olhos, se corroía por não ser feliz como desejava. Mamãe não
desejava. Mas mamãe estava morta. Fique
pronto, disse uma assistente, passando correndo a procura dos outros
artistas. Suspirando, como a um fardo, colocou a cabeleira loura e falsa,
passou um batom vermelho e se levantou.
Com vocês... Lady Stardust e seus companheiros. Saiu do camarim,
melancólico, de ar afetado e passos largados. Acendeu um cigarro amassado com
um isqueiro de um senhor da plateia e se sentou a beira do palco. Seu corpo,
sim, volumoso e esparramado; frondoso como o de uma mulher. Um homem dentro de
uma mulher. Fitou todos os presentes em cólera e, baforando desinteressado,
esperou o chorar do primeiro acorde da velha guitarra. Silêncio. Com vocês... Lady Stardust e sua tragédia,
pensou. A guitarra chorou e, acompanhando-a, pôs-se a cantar num vozeirão
trovejado e másculo. A canção era uma velha balada sobre as ruelas escuras da cidade,
a felicidade que se esvaía: uma canção que muito bem descreveria sua vida.
Fitava o nada, o escuro vão
entre a plateia e a cúpula. Seu olhar vítreo e petrificado transbordava uma
humanidade desumana. Um homem, uma mulher, uma luz presa nas trevas. Quando a
velha balada acabou, olhou para baixo. Por um momento, seus olhos encontraram
os dele e um faiscar ensaiou o seu brilho — mas tão rápido se apagou que
impossível é ter realmente ocorrido. Lady
Stardust, e suas canções sobre trevas e desgraça. Jogou o cigarro quase
acabado numa desinteressada cocote e puxou os fios do microfone, enrolando-se,
transformando-se, evoluindo. Com sua voz majestosa, cantou uma canção de amor.
Aquela canção parecia inundar
a velha casa de apresentações de uma tristeza mórbida, de uma alegria doentia e
de asco, e nojo. Uma canção que penetrava os ouvidos e os fazia chorar. As
cores, as luzes, pouco a pouco se esvaíam, tudo num tom cinzento, num tom de
morte. E Lady Stardust balançava, deslocando os pés em saltos altos de brilhantes,
e movimentando o largo quadril, apertado sob sua parca calça jeans. Balançava
como as árvores sob o vento da madrugada — preeminência de um temporal — suavemente
como um amante nos braços do outro, a sorrir por se sentir em casa naquele
peito tão conhecido. E, despedindo-se com lágrimas em olhos, Lady Stardust
acendeu um último cigarro e, curvando-se, cheirou um buquê de flores mortas que
lhe entregaram. Acenou; um aceno sem vida, sem ânimo. E foi-se.
Sorriu para si diante do velho
espelho do camarim. Retirou o batom com os braços e arrancou a cabeleira,
depositando-a de qualquer forma sobre um baú de fantasias. Tragou o cigarro
barato, pegou suas coisas e colocou na bolsinha de veludo que carregava. Jamais
esperaria, mas como um taciturno, uma figura surgiu junto de seu reflexo
maculado. Era ele, de jaqueta de couro, calça batida, barba malfeita e óculos
fundos. Alto, grande, mal. Belo show,
Stardust. Seu hálito cheirava a pinga, fumo e cebolas. Seu perfume doce
embrulhava o estômago e contagiava o ar. Sim, sorria triste para um amor que
não podia obedecer, mamãe. Com delicadeza, levantou-se, agradeceu a ele, e — choroso — deixou o camarim pelas portas dos fundos.
Com vocês... Lady Stardust e sua patética vida.
*****
Texto baseado na mais bela canção de David Bowie, na minha opinião... Lady Stardust.
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