quarta-feira, 4 de junho de 2014

I smiled sadly for a love I could not obey

Sorriu para si diante do velho espelho do camarim. As rugas de seu rosto, os pelos que nasciam no contorno de sua mandíbula, e a maquiagem gasta da noite inteira lhe davam um ar degradante, decadente. Passou o algodão sobre as pálpebras suavemente, como sempre fazia, num ritmo cerimonial. Sorria triste para um amor que não podia obedecer e, por detrás dos olhos, se corroía por não ser feliz como desejava. Mamãe não desejava. Mas mamãe estava morta. Fique pronto, disse uma assistente, passando correndo a procura dos outros artistas. Suspirando, como a um fardo, colocou a cabeleira loura e falsa, passou um batom vermelho e se levantou.
Com vocês... Lady Stardust e seus companheiros. Saiu do camarim, melancólico, de ar afetado e passos largados. Acendeu um cigarro amassado com um isqueiro de um senhor da plateia e se sentou a beira do palco. Seu corpo, sim, volumoso e esparramado; frondoso como o de uma mulher. Um homem dentro de uma mulher. Fitou todos os presentes em cólera e, baforando desinteressado, esperou o chorar do primeiro acorde da velha guitarra. Silêncio. Com vocês... Lady Stardust e sua tragédia, pensou. A guitarra chorou e, acompanhando-a, pôs-se a cantar num vozeirão trovejado e másculo. A canção era uma velha balada sobre as ruelas escuras da cidade, a felicidade que se esvaía: uma canção que muito bem descreveria sua vida.
Fitava o nada, o escuro vão entre a plateia e a cúpula. Seu olhar vítreo e petrificado transbordava uma humanidade desumana. Um homem, uma mulher, uma luz presa nas trevas. Quando a velha balada acabou, olhou para baixo. Por um momento, seus olhos encontraram os dele e um faiscar ensaiou o seu brilho — mas tão rápido se apagou que impossível é ter realmente ocorrido. Lady Stardust, e suas canções sobre trevas e desgraça. Jogou o cigarro quase acabado numa desinteressada cocote e puxou os fios do microfone, enrolando-se, transformando-se, evoluindo. Com sua voz majestosa, cantou uma canção de amor.
Aquela canção parecia inundar a velha casa de apresentações de uma tristeza mórbida, de uma alegria doentia e de asco, e nojo. Uma canção que penetrava os ouvidos e os fazia chorar. As cores, as luzes, pouco a pouco se esvaíam, tudo num tom cinzento, num tom de morte. E Lady Stardust balançava, deslocando os pés em saltos altos de brilhantes, e movimentando o largo quadril, apertado sob sua parca calça jeans. Balançava como as árvores sob o vento da madrugada — preeminência de um temporal — suavemente como um amante nos braços do outro, a sorrir por se sentir em casa naquele peito tão conhecido. E, despedindo-se com lágrimas em olhos, Lady Stardust acendeu um último cigarro e, curvando-se, cheirou um buquê de flores mortas que lhe entregaram. Acenou; um aceno sem vida, sem ânimo. E foi-se.
Sorriu para si diante do velho espelho do camarim. Retirou o batom com os braços e arrancou a cabeleira, depositando-a de qualquer forma sobre um baú de fantasias. Tragou o cigarro barato, pegou suas coisas e colocou na bolsinha de veludo que carregava. Jamais esperaria, mas como um taciturno, uma figura surgiu junto de seu reflexo maculado. Era ele, de jaqueta de couro, calça batida, barba malfeita e óculos fundos. Alto, grande, mal. Belo show, Stardust. Seu hálito cheirava a pinga, fumo e cebolas. Seu perfume doce embrulhava o estômago e contagiava o ar. Sim, sorria triste para um amor que não podia obedecer, mamãe. Com delicadeza, levantou-se, agradeceu a ele, e — choroso — deixou o camarim pelas portas dos fundos.
Com vocês... Lady Stardust e sua patética vida.

*****



Texto baseado na mais bela canção de David Bowie, na minha opinião... Lady Stardust.

Nenhum comentário:

Postar um comentário