A janela de seu apartamento proporcionava uma
ampla vista de nada muito atraente além de construções enormes e aquela
rotineira cor acinzentada e urbana. Em seu parapeito, uma taça de vinho seco e
um cinzeiro, no qual um cigarro em brasas repousava. Não estava acostumado com
aquela solidão, aquele silêncio que — em meio ao barulho humano alheio ao
apartamento — sufocava sua alma inquietando-a. Na cama de casal, os vestígios
de seu companheiro e o leve tracejado do corpo deste que ainda marcava os
lençóis e que, se respirasse próximo a seu travesseiro, ainda sentiria o
perfume adocicado que o hipnotizava. Esqueça,
idiota. Sobre a mesa da copa, ainda aguardavam cobertos por um guardanapo
os pães, geleias, leite e café do desjejum matinal; umas poucas migalhas onde
ele sentara e rapidamente comera.
Tragou o cigarro como se, após um longo mergulho, respirasse ar puro. Liberou sua fumaça preguiçosamente, lento e relaxado. Parecia feriado, mas não era; em seu celular, esquecido sobre o balcão da cozinha, uma mensagem o lembrava do dever abandonado — sua colega de trabalho lhe mandara um recado advertindo-o da irritação do chefe para com sua falta. Sentia-se amorfo, quase apático. Cada parte de seu corpo latejava fracamente aquela sensação que se tem quando se acorda após longas horas de sono (o que lhe era estranho, pois mal dormira); estava preso sob um jugo de preguiça e inanição em que se manter em pé lhe cansava tanto quanto o esforço de deitar-se.
Inadvertidamente, sua mente se deixou vaguear pelas nuvens de memórias relembrando-o de duas semanas atrás. Saíra para comemorar com amigos após uma exaustiva semana de trabalho e hora extra (mesmo que seus esforços profissionais não tivessem dado em nada, ao contrário do que acontecera com quase todos os seus colegas de trabalho); a simples presença deles parecia retirar quaisquer pesos que pendiam em seus ombros — o dia ficava mais leve e a cerveja, mais saborosa. Quando colocou o fino casaco para dar contra do friozinho das dez da noite, seu celular apitou do bolso da calça. Ele ligava. Atendeu atônito, com o peito se expandindo para caber todo o sentimento positivo que aquela voz lhe transmitiria. Alô? Desculpa te ligar esse horário: queria falar contigo. A conversa se desenrolou por dois prazerosos minutos, terminando com, além de uma despedida, um pedido: Quero te dar um abraço. Como era possível que algo tão simples, tão mínimo, pudesse se tornar um dos atos de afeto mais gostosos de se receber, e dar? Involuntariamente, sorriu e pegou as chaves do carro. Dentro deste, abriu suas janelas para que o vento frio corresse em seu rosto, beijando-o suavemente e o confortando. Quero te dar um abraço.
O encontrou apenas meia hora depois, quando já estava com seus amigos e bebia e comia enquanto a conversa corria solta. Chegou atrasado, mas sem perder o jeito, e sentou-se próximo, com as pernas coladas. Seu sorriso era incrível, branco e sincero, e perfeito. A conversa adaptou-se ao novo integrante da mesa e, em pouco tempo, ele era o centro das atenções, com aquele humor que, embora expansivo, era comedido nos momentos certos e certeiros nas tiradas e no papo simples. Não foram poucas as vezes que suas pernas se trombaram e se entrelaçaram por debaixo da madeira. Cada piscada de olho, cada brincadeira galante, cada risada, cada gesto parecia embriagá-lo mais que qualquer bebida. Foi então que aconteceu: todos saíram para fumar. E ambos ficaram ali, quietos e juntos. Vá fumar, eu te espero. Respondeu com uma negativa; preferia estar ali, junto dele. Mesmo em privacidade, não trocaram uma palavra íntima, um flerte sequer, mas encarava-o com aqueles olhos apaixonados, vibrantes, desejosos e simpáticos — estava em outro plano, e tudo que observava lhe era belo aos olhos, desde seus cabelos meio compridos escondidos pelo boné vermelho gasto até seus lábios formosamente contornados e carnudos.
O passeio terminou a meia-noite; todos correram para seus carros evitando o frio que acentuara. Ele estava ali, junto dele, que meio bêbado e meio bobo, o abraçou pela cintura e lhe beijou o rosto. Foi questão de segundos, no máximo dois, mas onde lhe beijara a pele ficara quente, macia — quer isto fosse um efeito real ou psicológico. E ele foi embora para seu carro, naquele andar casual. Quis correr para pular em seus braços, para beijar sua boca, para sorrir escancarado, sem medo de mostrar cada dente que havia; queria piscar os seus olhos molhados de lágrimas de alegria e morder o lábio inferior em desejo tímido, mas tudo não passou de um querer, uma vontade. Deixou que fosse, deixou que ligasse o carro e partisse. Aqueceu as mãos rapidamente e também partiu.
E, então, sua mente planou e aterrissou na janela de seu apartamento, tornando a lucidez do dia à luz. O cigarro jazia apagado, morto pela espera, e o vinho se tornara cova de um malfadado inseto. Olhou para os lados, para a cama no quarto e a mesa na copa (ambos após os portais de suas portas) e desabou no chão, apoiado na parede. Tateou pelo cigarro e isqueiro e, achando-os no braço do sofá, puxou-os para si e o acendeu. Tragou-o com paixão, com avidez. E as lágrimas rolaram de seus olhos como imãs concentradores de toda sua solidão. As marcas na cama eram suas, assim como o doce perfume, e as migalhas que deixara cair, de seu desjejum tedioso. Porém, bem preferia que ambas, as marcas e as migalhas, fossem do dono do sorriso e dos lábios mais belos do mundo.
Tragou o cigarro como se, após um longo mergulho, respirasse ar puro. Liberou sua fumaça preguiçosamente, lento e relaxado. Parecia feriado, mas não era; em seu celular, esquecido sobre o balcão da cozinha, uma mensagem o lembrava do dever abandonado — sua colega de trabalho lhe mandara um recado advertindo-o da irritação do chefe para com sua falta. Sentia-se amorfo, quase apático. Cada parte de seu corpo latejava fracamente aquela sensação que se tem quando se acorda após longas horas de sono (o que lhe era estranho, pois mal dormira); estava preso sob um jugo de preguiça e inanição em que se manter em pé lhe cansava tanto quanto o esforço de deitar-se.
Inadvertidamente, sua mente se deixou vaguear pelas nuvens de memórias relembrando-o de duas semanas atrás. Saíra para comemorar com amigos após uma exaustiva semana de trabalho e hora extra (mesmo que seus esforços profissionais não tivessem dado em nada, ao contrário do que acontecera com quase todos os seus colegas de trabalho); a simples presença deles parecia retirar quaisquer pesos que pendiam em seus ombros — o dia ficava mais leve e a cerveja, mais saborosa. Quando colocou o fino casaco para dar contra do friozinho das dez da noite, seu celular apitou do bolso da calça. Ele ligava. Atendeu atônito, com o peito se expandindo para caber todo o sentimento positivo que aquela voz lhe transmitiria. Alô? Desculpa te ligar esse horário: queria falar contigo. A conversa se desenrolou por dois prazerosos minutos, terminando com, além de uma despedida, um pedido: Quero te dar um abraço. Como era possível que algo tão simples, tão mínimo, pudesse se tornar um dos atos de afeto mais gostosos de se receber, e dar? Involuntariamente, sorriu e pegou as chaves do carro. Dentro deste, abriu suas janelas para que o vento frio corresse em seu rosto, beijando-o suavemente e o confortando. Quero te dar um abraço.
O encontrou apenas meia hora depois, quando já estava com seus amigos e bebia e comia enquanto a conversa corria solta. Chegou atrasado, mas sem perder o jeito, e sentou-se próximo, com as pernas coladas. Seu sorriso era incrível, branco e sincero, e perfeito. A conversa adaptou-se ao novo integrante da mesa e, em pouco tempo, ele era o centro das atenções, com aquele humor que, embora expansivo, era comedido nos momentos certos e certeiros nas tiradas e no papo simples. Não foram poucas as vezes que suas pernas se trombaram e se entrelaçaram por debaixo da madeira. Cada piscada de olho, cada brincadeira galante, cada risada, cada gesto parecia embriagá-lo mais que qualquer bebida. Foi então que aconteceu: todos saíram para fumar. E ambos ficaram ali, quietos e juntos. Vá fumar, eu te espero. Respondeu com uma negativa; preferia estar ali, junto dele. Mesmo em privacidade, não trocaram uma palavra íntima, um flerte sequer, mas encarava-o com aqueles olhos apaixonados, vibrantes, desejosos e simpáticos — estava em outro plano, e tudo que observava lhe era belo aos olhos, desde seus cabelos meio compridos escondidos pelo boné vermelho gasto até seus lábios formosamente contornados e carnudos.
O passeio terminou a meia-noite; todos correram para seus carros evitando o frio que acentuara. Ele estava ali, junto dele, que meio bêbado e meio bobo, o abraçou pela cintura e lhe beijou o rosto. Foi questão de segundos, no máximo dois, mas onde lhe beijara a pele ficara quente, macia — quer isto fosse um efeito real ou psicológico. E ele foi embora para seu carro, naquele andar casual. Quis correr para pular em seus braços, para beijar sua boca, para sorrir escancarado, sem medo de mostrar cada dente que havia; queria piscar os seus olhos molhados de lágrimas de alegria e morder o lábio inferior em desejo tímido, mas tudo não passou de um querer, uma vontade. Deixou que fosse, deixou que ligasse o carro e partisse. Aqueceu as mãos rapidamente e também partiu.
E, então, sua mente planou e aterrissou na janela de seu apartamento, tornando a lucidez do dia à luz. O cigarro jazia apagado, morto pela espera, e o vinho se tornara cova de um malfadado inseto. Olhou para os lados, para a cama no quarto e a mesa na copa (ambos após os portais de suas portas) e desabou no chão, apoiado na parede. Tateou pelo cigarro e isqueiro e, achando-os no braço do sofá, puxou-os para si e o acendeu. Tragou-o com paixão, com avidez. E as lágrimas rolaram de seus olhos como imãs concentradores de toda sua solidão. As marcas na cama eram suas, assim como o doce perfume, e as migalhas que deixara cair, de seu desjejum tedioso. Porém, bem preferia que ambas, as marcas e as migalhas, fossem do dono do sorriso e dos lábios mais belos do mundo.
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