Até que eu beije sua boca. Até que me sinta em
paz. Foram minhas últimas
palavras, eu sei. Tinham um tom de luto, de despedida. Quase como se parte de
mim fosse arrancada à força. Você, ali, não entendeu o peso das minhas
palavras; e nem poderia, afinal, eu não queria que aquela fosse a última vez
que nos víssemos. Nos despedimos como sempre fazíamos, com um abraço apertado e
um beijo no seu pescoço, nunca no seu rosto.
Naquele
dia, choveu. Ou eu penso assim, não me lembro ao certo. Na minha memória,
choveu forte e o céu ficou escuro como os meus olhos de ressaca. Imaginei ouvir
os seus passos sobre a água e o balançar do guarda-chuva sob a ventania até o
carro. Depois que fechei a porta, sentei no tapete aos pés do sofá somente sob
a luz do abajur da mesinha-de-canto. Sempre preferi a chuva, sabe? A
melancolia que ela remete é tão bela. Vejo os pingos no vidro da janela e me
sinto apaixonado. Penso em tirar uma foto e me lembro que nem ligar direito
aquela câmera guardada em meu armário eu sei. Por um tempo, antigamente,
acreditava que em certos momentos tristes de nossas vidas simplesmente chovia,
como forma de afirmar esse estado de espírito. Parei de assim acreditar quando
olhei as plantas sob minha janela, que sempre cuidei com esmero: elas parecem
mais vivas e mais belas após a chuva.
Ligo
o toca-discos e ouço a máquina escolher o próximo álbum. É The Smiths. Aquela canção sobre ter sonhado em ser amado por
alguém. Lembro de você. Você se despediu de mim com aquele sorriso embriagante.
Quase sorrio também, de lembrar. Nós não nos veremos mais, mas eu prefiro
acreditar que sim: um dia você tocará a campainha do meu apartamento e me dará
um outro abraço apertado. O tempo passará, você não irá voltar, e seguirei em
frente. Mas prefiro pensar assim, pois saberei que minha última memória será
essa espera ansiosa e apaixonada que sempre tive quando nos despedíamos.
Acendi
um cigarro em sua homenagem. Eu sei, você odeia que eu fume. Ainda mais de
manhã e de madrugada, meus horários preferidos. Ficava me olhando com seus
olhos matreiros enquanto eu simplesmente tragava, e curtia. No fundo, você se
divertia — eu acho — com a minha maneira de tentar fumar e parecer sempre
elegante de mais e criança de menos. Quando não estou ao seu lado, o tempo
parece correr e voar como se passasse por mim como um sopro terrível e não
deixasse rastros. E, então, estou sem cigarros (só restou um) e observo os
últimos pingos da chuva a cair. A voz de Morrisey canta dramaticamente sobre
aquele homem charmoso. Poderia ser você, mas não é. Você dirigiu o seu carro
para o além da minha vida e não pode ser o homem charmoso que ouço agora.
Pego
o último cigarro, acendo e o trago. Olho para fora, para a janela que entreabri
para deixar a fumaça correr e se misturar ao céu. Não te vi ligar o carro e
sumir pela avenida movimentada, mas a sua vaga ainda está vazia — e assim
ficará.
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Se você gostou deste texto, tenho certeza que se apaixonará por “Giulia”, escrito pela Mariana Jati. Curioso? Veja aqui.
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