Filipa era linda; um baita mulherão essa Filipa. Loira,
alta e formosa, de olhos desenhados, nariz e boca finos. Também, era sádica,
Filipa. Conheci-a num bar de rock pauleira oitentista, com um vestido preto
simples, que eu me lembre, mas muito bonito. Não era perequeté, mas usava um colar de ouro mui formoso em seu pescoço
esguio. Bebia cerveja preta e fumava cigarros sem tragar. Pouca moral dava a
qualquer um que tentasse com você, parecia sempre serena nas respostas efusivas
e no dar as costas para quem quer que estivesse lhe importunando.
Como te odiei, Filipa, agora eu entendo. Sua bem composta
aura, escrita em linhas cultas e de estrutura complexa, era um imã para
qualquer um, idiota ou inteligente, lhe agraciar. Fomos apresentados por um
amigo em comum, Miguel Ângelo, sempre sorridente próximo a ti. Até hoje, quando
fumo um cigarro e me ponho a pensar em tudo que passamos, me divido ao pensar
que Miguelito fosse ou o idiota ou o inteligente. Por incrível que pareça,
Filipa, tínhamos — e de certo modo, ainda temos — uma sintonia para quaisquer
assuntos que brotassem de nossas cabeças e um humor afiado para tratarmos dos
colóquios do mundo. Sempre fui fácil de lidar, uma característica que tinha a
impressão de possui-la, mas me foi confirmada posteriormente por amigos e
pessoas com as quais convivi e me relacionei; você, não, Filipa, você era
difícil, quase impossível, e requeria de qualquer um ao seu redor um esforço
mental para que não pisassem em campo minado.
De início, admito, te achei fantástica por saber dar
àqueles que merecem uma resposta digna de seus atos; desde os insolentes aos
ignorantes — na lata, no gol, uma bofetada imaginária que, embora não chegasse
a pele, afetasse o abstrato com presteza cirúrgica. Não entendo até que ponto a
sua real personalidade ou o tom avermelhado e insubmisso de seu batom vermelho
eram realmente os catalisadores de tamanha habilidade em conviver com a
sociedade; mas sempre tive absoluta convicção que poucas palavras proferidas
não estavam incrustadas em seu interior sórdido antes de serem lançadas aos
ventos. Nesses momentos, Miguelito, que não de todo bom em se relacionar com os
outros (e sei que, atualmente, mantém o mesmo equívoco de não saber escolher as
boas amizades para os bons frutos), sempre retesava em um alerta visual: seus
olhos brilhavam entre o medo e a excitação de um rompante seu, Filipa.
Passei a conviver em seu círculo social, aqueles amigos
mais próximos de Facebook, me entende? Danilo, Viviane e Túlio eram os três
mosqueteiros às ordens da rainha de Versalhes, você. Danilo, muito parecido
conosco em vários aspectos, também era ligeiro em nossas conversas e penetrante
com sua personalidade, mesmo que por vezes recatasse em seu olhos assuntos os
quais não abordaria em minha frente (e, minha cara, tenho ideia do que pudessem
ser); Viviane tinha um belo par de dentes e ria alto, mas não parecia se
esforçar em ocultar, ou mimetizar o diferente, a mosca-morta interna que
tragava quaisquer de seus qualidades para o mesmo tom acinzentado que emitia de
sua parca personalidade — Viviane era, acredite!, descartável, mesmo que
tratada por você como a menina de seus olhos, sua protegida, sua fiel
confidente. Túlio era um brutamontes capadócio, dispensa quaisquer comentários
posteriores por, ao invés de ódio, estimular a pena — não a sacra como para os
miseráveis de espírito e fortuna, mas a repugnante para os infames e
acanalhados. Pode parecer, assim, que a evidente pergunta a ser feita é como
essa estranha simbiose funcionava. Você a fazia funcionar.
Você fazia as engrenagens rodarem mesmo que não houvesse
óleo algum para trabalharem, não é, Filipa? Orquestrou uma harmonia entre as
melhores qualidades de todos os ali presentes e controlava com mãos de ferro os
defeitos e as avarias. Nesse aspecto, além de controladora, você é sádica. Uma
sádica estudada em transformar qualquer deslize imprevisto numa lança afiada
para perfurar, sem jamais matar, qualquer um que dispusesse-a para ti; lambia
os beiços finos com sua grossa língua ao ver o sangue filar e vazar. Jamais
permitia que o vivo líquido jorrasse em desperdício, parecia aproveitar cada
gota de sangue que usurpava de todos os quatro sem que vissem, ou sentissem.
Filipa, você me enoja, mas aqueles que contigo sentavam comeriam se você
pedisse a suas sobras como se comessem a um banquete. Pareceu-me, naquelas
primeiras reuniões, algum acaso; não percebi a fundura dos cortes que você
fazia sangrar. Divertia-me aprender com seu humor afiado (quando o podia
discerni-lo como humor, e não como sadismo) alguns bons impropérios contra
idiotas como Túlio, mas fui me apercebendo de pequenas estocadas em meu abdome
que me instigavam a recuar, pouco a pouco, em uma defensiva paranoica. Veio
como um arruaceiro a assaltar pela madrugada, em total quietude e sensatez, mas
com o tempo tornou-se como o irresponsável que no roubo aponta a arma e dispara
sem pensar duas vezes.
As reuniões se tornaram pequenos martírios, objetos do
meu desejo de correr para longe, longe de ti, Filipa. Carregaria comigo
Miguelito, por quem sempre tive grande apreço, nos braços para longe de ti;
para que repousasse em paz das feridas que, conforme avançavam semanas,
pareciam crescer e brilhar num vermelho nauseabundo. Tudo desandou, ao meu ver,
quando você me esfaqueou pela primeira vez, e pude sentir o meu vigor
escorrer-me em filetes até o chão. Perdoei-a por bons costumes, mas jamais me
esqueci da sensação de ser aberto e sangrar como se faz a um animal que nos
alimenta. Foi nessa época que me tornei mais atento a encontrar em ti algum
defeito que pudesse, em legítima defesa, transformá-lo em arma para estocá-la
(como fui tolo! Deveria tê-la feito esguichar sangue pelas têmporas). Foi aqui
que percebi suas qualidades abundantes, escondidas dentre a selvageria de seu
sadismo em evidência. Sua inteligência perspicaz, sua sabedoria em bons
conselhos, seus conhecimentos sobre o viver e o sobreviver no quotidiano. Você
era, e é, completa, Filipa.
Mesmo assim, nem seus dons inequívocos, salvaram nossa
amizade (amizade?). E quando, em sua habilidade, você me atingiu em cheio, todo
o resto de apreço que mantinha por ti caiu por terra. Agarrei a mesma lança que
me atingira e a parti ao meio. Eu a odiei, Filipa, odiei como nunca odiara
jamais alguém e, como que por ironia, você tirou esta minha virgindade e inocência.
Nunca mais voltei. Nunca mais a respondi e sempre que ia ao velho bar e
encontrava-a com os seus iguais e escoteiros, cumprimentava-a por bons modos e
me retirava de sua presença. Sua beleza se tornou feiura, sua inteligência,
manipuladora, e seu humor afiado, uma sujeira que dispus lavá-lo de mim. Toda
marca de batom em minha bochecha, de nossos cumprimentos, e todas as suas
qualidade inequívocas eu as lancei mão. Isso há muitos anos. Ouvi dizer que,
atualmente, você mora em Miami, está casada e tem três filhos, sócia de uma
multinacional e desfila por aí com sua Louis Vuitton e Prada com a elegância
que sua humanidade lhe presenteou. E eis-me aqui em meu apartamento, só,
bebendo meu café amargo e fumando meu cigarro barato, enquanto digito compulsivamente
matérias para o Daily Mail. Chove lá
fora e dormirei sozinho em minha cama (supostamente) de casal.
Mas é como
dizem, minha cara Filipa, antes só do que mal acompanhado. Aquele abraço.
*****
Para aqueles que não cultivam o ódio, mas o entendem como parte humana do mundo real, Damião.
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