sábado, 24 de maio de 2014

Filipa, eu te odeio.

Filipa era linda; um baita mulherão essa Filipa. Loira, alta e formosa, de olhos desenhados, nariz e boca finos. Também, era sádica, Filipa. Conheci-a num bar de rock pauleira oitentista, com um vestido preto simples, que eu me lembre, mas muito bonito. Não era perequeté, mas usava um colar de ouro mui formoso em seu pescoço esguio. Bebia cerveja preta e fumava cigarros sem tragar. Pouca moral dava a qualquer um que tentasse com você, parecia sempre serena nas respostas efusivas e no dar as costas para quem quer que estivesse lhe importunando.
Como te odiei, Filipa, agora eu entendo. Sua bem composta aura, escrita em linhas cultas e de estrutura complexa, era um imã para qualquer um, idiota ou inteligente, lhe agraciar. Fomos apresentados por um amigo em comum, Miguel Ângelo, sempre sorridente próximo a ti. Até hoje, quando fumo um cigarro e me ponho a pensar em tudo que passamos, me divido ao pensar que Miguelito fosse ou o idiota ou o inteligente. Por incrível que pareça, Filipa, tínhamos — e de certo modo, ainda temos — uma sintonia para quaisquer assuntos que brotassem de nossas cabeças e um humor afiado para tratarmos dos colóquios do mundo. Sempre fui fácil de lidar, uma característica que tinha a impressão de possui-la, mas me foi confirmada posteriormente por amigos e pessoas com as quais convivi e me relacionei; você, não, Filipa, você era difícil, quase impossível, e requeria de qualquer um ao seu redor um esforço mental para que não pisassem em campo minado.
De início, admito, te achei fantástica por saber dar àqueles que merecem uma resposta digna de seus atos; desde os insolentes aos ignorantes — na lata, no gol, uma bofetada imaginária que, embora não chegasse a pele, afetasse o abstrato com presteza cirúrgica. Não entendo até que ponto a sua real personalidade ou o tom avermelhado e insubmisso de seu batom vermelho eram realmente os catalisadores de tamanha habilidade em conviver com a sociedade; mas sempre tive absoluta convicção que poucas palavras proferidas não estavam incrustadas em seu interior sórdido antes de serem lançadas aos ventos. Nesses momentos, Miguelito, que não de todo bom em se relacionar com os outros (e sei que, atualmente, mantém o mesmo equívoco de não saber escolher as boas amizades para os bons frutos), sempre retesava em um alerta visual: seus olhos brilhavam entre o medo e a excitação de um rompante seu, Filipa.
Passei a conviver em seu círculo social, aqueles amigos mais próximos de Facebook, me entende? Danilo, Viviane e Túlio eram os três mosqueteiros às ordens da rainha de Versalhes, você. Danilo, muito parecido conosco em vários aspectos, também era ligeiro em nossas conversas e penetrante com sua personalidade, mesmo que por vezes recatasse em seu olhos assuntos os quais não abordaria em minha frente (e, minha cara, tenho ideia do que pudessem ser); Viviane tinha um belo par de dentes e ria alto, mas não parecia se esforçar em ocultar, ou mimetizar o diferente, a mosca-morta interna que tragava quaisquer de seus qualidades para o mesmo tom acinzentado que emitia de sua parca personalidade — Viviane era, acredite!, descartável, mesmo que tratada por você como a menina de seus olhos, sua protegida, sua fiel confidente. Túlio era um brutamontes capadócio, dispensa quaisquer comentários posteriores por, ao invés de ódio, estimular a pena — não a sacra como para os miseráveis de espírito e fortuna, mas a repugnante para os infames e acanalhados. Pode parecer, assim, que a evidente pergunta a ser feita é como essa estranha simbiose funcionava. Você a fazia funcionar.
Você fazia as engrenagens rodarem mesmo que não houvesse óleo algum para trabalharem, não é, Filipa? Orquestrou uma harmonia entre as melhores qualidades de todos os ali presentes e controlava com mãos de ferro os defeitos e as avarias. Nesse aspecto, além de controladora, você é sádica. Uma sádica estudada em transformar qualquer deslize imprevisto numa lança afiada para perfurar, sem jamais matar, qualquer um que dispusesse-a para ti; lambia os beiços finos com sua grossa língua ao ver o sangue filar e vazar. Jamais permitia que o vivo líquido jorrasse em desperdício, parecia aproveitar cada gota de sangue que usurpava de todos os quatro sem que vissem, ou sentissem. Filipa, você me enoja, mas aqueles que contigo sentavam comeriam se você pedisse a suas sobras como se comessem a um banquete. Pareceu-me, naquelas primeiras reuniões, algum acaso; não percebi a fundura dos cortes que você fazia sangrar. Divertia-me aprender com seu humor afiado (quando o podia discerni-lo como humor, e não como sadismo) alguns bons impropérios contra idiotas como Túlio, mas fui me apercebendo de pequenas estocadas em meu abdome que me instigavam a recuar, pouco a pouco, em uma defensiva paranoica. Veio como um arruaceiro a assaltar pela madrugada, em total quietude e sensatez, mas com o tempo tornou-se como o irresponsável que no roubo aponta a arma e dispara sem pensar duas vezes.
As reuniões se tornaram pequenos martírios, objetos do meu desejo de correr para longe, longe de ti, Filipa. Carregaria comigo Miguelito, por quem sempre tive grande apreço, nos braços para longe de ti; para que repousasse em paz das feridas que, conforme avançavam semanas, pareciam crescer e brilhar num vermelho nauseabundo. Tudo desandou, ao meu ver, quando você me esfaqueou pela primeira vez, e pude sentir o meu vigor escorrer-me em filetes até o chão. Perdoei-a por bons costumes, mas jamais me esqueci da sensação de ser aberto e sangrar como se faz a um animal que nos alimenta. Foi nessa época que me tornei mais atento a encontrar em ti algum defeito que pudesse, em legítima defesa, transformá-lo em arma para estocá-la (como fui tolo! Deveria tê-la feito esguichar sangue pelas têmporas). Foi aqui que percebi suas qualidades abundantes, escondidas dentre a selvageria de seu sadismo em evidência. Sua inteligência perspicaz, sua sabedoria em bons conselhos, seus conhecimentos sobre o viver e o sobreviver no quotidiano. Você era, e é, completa, Filipa.
Mesmo assim, nem seus dons inequívocos, salvaram nossa amizade (amizade?). E quando, em sua habilidade, você me atingiu em cheio, todo o resto de apreço que mantinha por ti caiu por terra. Agarrei a mesma lança que me atingira e a parti ao meio. Eu a odiei, Filipa, odiei como nunca odiara jamais alguém e, como que por ironia, você tirou esta minha virgindade e inocência. Nunca mais voltei. Nunca mais a respondi e sempre que ia ao velho bar e encontrava-a com os seus iguais e escoteiros, cumprimentava-a por bons modos e me retirava de sua presença. Sua beleza se tornou feiura, sua inteligência, manipuladora, e seu humor afiado, uma sujeira que dispus lavá-lo de mim. Toda marca de batom em minha bochecha, de nossos cumprimentos, e todas as suas qualidade inequívocas eu as lancei mão. Isso há muitos anos. Ouvi dizer que, atualmente, você mora em Miami, está casada e tem três filhos, sócia de uma multinacional e desfila por aí com sua Louis Vuitton e Prada com a elegância que sua humanidade lhe presenteou. E eis-me aqui em meu apartamento, só, bebendo meu café amargo e fumando meu cigarro barato, enquanto digito compulsivamente matérias para o Daily Mail. Chove lá fora e dormirei sozinho em minha cama (supostamente) de casal.
Mas é como dizem, minha cara Filipa, antes só do que mal acompanhado. Aquele abraço.

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Para aqueles que não cultivam o ódio, mas o entendem como parte humana do mundo real, Damião.

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