Paulo, eu te amo. Nunca havia lhe dito, ou havia? Não
importa; digo agora. O que vivemos, o que passamos, já não é mais o hoje que presencio.
E, com toda a certeza e com toda a fé, enfatizo todas as letras da minha
constatação: eu te amo. Com todas as minhas forças e com cada célula imperfeita
de meu corpo.
Descobri que não preciso que o achem bonito. Você não o é
aos olhares estranhos, destas pessoas sem rosto. Eu o acho bonito, desde seus
olhos faiscantes que me cativam o sorriso até seus lábios delineados que me
torturam a alma; um beijo, eu lhe peço — um beijo, eu lhe imploro. Até seu
humor petulante e aspirante a intelecto de bar me assanha a alegria e
transforma meu dia. Você me faz feliz! E permiti, por muito tempo, me fazer
cego a isso. Não me deixe.
Paulo, me ouça. Não fale. Você não irá me responder e, ao
ler isto, ficará mudo, como que preso no silêncio que me perturba e me distorce
a vida. Refletirá por um instante e, então, saberá que não minto; meus olhos
não me permitem mentir, você sabe? Meus olhos jorram esse sentimento de tal
forma que tentar enganá-lo só enganaria a mim. Não planejei esta carta com
antecedência, mas não pude aguentar e tive de escrevê-la. Foi um ímpeto de
audácia que me nasceu quando, nestas noites a escrever, entendi que o meu
ofício me é uma droga e um remédio. Me vicia. Me mata. Me faz viver um dia a
mais. E me cura as grossas lágrimas salgadas de melancolia e ódio.
Pensei em fugir, fugir contigo. Me esconder nas belas
pradarias escocesas, que tanto adoro, e morar numa gleba idílica e bucólica.
Acordar todos os dias ao seu lado, feliz por ter te encontrado e estar em seus
braços. Descobri Paulo, contudo, que não adiantaria levá-lo para longe do
mundo. Quero que vejam, que se estarreçam e que saibam que estou contigo em
todas as horas, e que o amo de forma doentia. Sou doente de amor e isso me soa
belo aos ouvidos. Belo à alma. Decidi ficar, aguardar, e sei que hoje sou teu,
puramente teu. E saber que posso mostrar esse estranho sentimento a todos que conheço,
e aos estranhos manequins que me rodeiam, faz meu coração bater regularmente —
você curou minha arritmia psicológica e restaurou minha pulsação de vida.
Quem dera, Paulo, quem dera que um dia eu largaria a pena
e a tinta para escrever com sangue as letras desta carta. As palavras que
esguicham aos borbotões e inundam de sentimento este pedaço de papel. Elas me
coçam os dedos para publicá-las, para torná-las suas, incrustadas em seus olhos
e em seu coração. E, quem sabe, um dia você poderá me olhar com este seu jeito
tão particular de me observar, me abraçar como fazíamos no bar, beijar o canto
da minha boca e me responder o que esconde tão bem atrás desta cortina de águas
turvas.
Dance comigo. Dance comigo este jazz. Eles me julgarão
pelo meu gingado, mas nunca ouvirão a sinfonia que rege meu corpo para ti.
Esqueceram que, por trás de nossos corpos colados, há um único sentimento.
Dance comigo até o sol raiar, meu querido, e dirija seu carro pela noite fria
da cidade. Sinta o ar que bate em nossos rostos, o cigarro que tempera nossas
bocas, o frio que nos provoca a libido e a liberdade que nos cerca e nos
transforma. Durma comigo, agarrado, colado e eu o abraçarei até que cerre seus
olhos e descanse em paz. Em paz.
Só assim saberei, meu amor, que as marcas nesta cama são
tuas... e as migalhas sobre a mesa, também. E ao olhar pela janela, para sua
vaga, verei seu carro. Ainda que não seja o mesmo. Sim, Paulo, eu te amo.
E sempre amarei.
Um texto para aqueles que, no
dia do Amar, comemoram o primeiro amor: o próprio. Ao som da mais linda balada de amor do
ano.
Nenhum comentário:
Postar um comentário