quinta-feira, 12 de junho de 2014

Paulo, eu te amo.

Paulo, eu te amo. Nunca havia lhe dito, ou havia? Não importa; digo agora. O que vivemos, o que passamos, já não é mais o hoje que presencio. E, com toda a certeza e com toda a fé, enfatizo todas as letras da minha constatação: eu te amo. Com todas as minhas forças e com cada célula imperfeita de meu corpo.
Descobri que não preciso que o achem bonito. Você não o é aos olhares estranhos, destas pessoas sem rosto. Eu o acho bonito, desde seus olhos faiscantes que me cativam o sorriso até seus lábios delineados que me torturam a alma; um beijo, eu lhe peço — um beijo, eu lhe imploro. Até seu humor petulante e aspirante a intelecto de bar me assanha a alegria e transforma meu dia. Você me faz feliz! E permiti, por muito tempo, me fazer cego a isso. Não me deixe.
Paulo, me ouça. Não fale. Você não irá me responder e, ao ler isto, ficará mudo, como que preso no silêncio que me perturba e me distorce a vida. Refletirá por um instante e, então, saberá que não minto; meus olhos não me permitem mentir, você sabe? Meus olhos jorram esse sentimento de tal forma que tentar enganá-lo só enganaria a mim. Não planejei esta carta com antecedência, mas não pude aguentar e tive de escrevê-la. Foi um ímpeto de audácia que me nasceu quando, nestas noites a escrever, entendi que o meu ofício me é uma droga e um remédio. Me vicia. Me mata. Me faz viver um dia a mais. E me cura as grossas lágrimas salgadas de melancolia e ódio.
Pensei em fugir, fugir contigo. Me esconder nas belas pradarias escocesas, que tanto adoro, e morar numa gleba idílica e bucólica. Acordar todos os dias ao seu lado, feliz por ter te encontrado e estar em seus braços. Descobri Paulo, contudo, que não adiantaria levá-lo para longe do mundo. Quero que vejam, que se estarreçam e que saibam que estou contigo em todas as horas, e que o amo de forma doentia. Sou doente de amor e isso me soa belo aos ouvidos. Belo à alma. Decidi ficar, aguardar, e sei que hoje sou teu, puramente teu. E saber que posso mostrar esse estranho sentimento a todos que conheço, e aos estranhos manequins que me rodeiam, faz meu coração bater regularmente — você curou minha arritmia psicológica e restaurou minha pulsação de vida.
Quem dera, Paulo, quem dera que um dia eu largaria a pena e a tinta para escrever com sangue as letras desta carta. As palavras que esguicham aos borbotões e inundam de sentimento este pedaço de papel. Elas me coçam os dedos para publicá-las, para torná-las suas, incrustadas em seus olhos e em seu coração. E, quem sabe, um dia você poderá me olhar com este seu jeito tão particular de me observar, me abraçar como fazíamos no bar, beijar o canto da minha boca e me responder o que esconde tão bem atrás desta cortina de águas turvas.
Dance comigo. Dance comigo este jazz. Eles me julgarão pelo meu gingado, mas nunca ouvirão a sinfonia que rege meu corpo para ti. Esqueceram que, por trás de nossos corpos colados, há um único sentimento. Dance comigo até o sol raiar, meu querido, e dirija seu carro pela noite fria da cidade. Sinta o ar que bate em nossos rostos, o cigarro que tempera nossas bocas, o frio que nos provoca a libido e a liberdade que nos cerca e nos transforma. Durma comigo, agarrado, colado e eu o abraçarei até que cerre seus olhos e descanse em paz. Em paz.
Só assim saberei, meu amor, que as marcas nesta cama são tuas... e as migalhas sobre a mesa, também. E ao olhar pela janela, para sua vaga, verei seu carro. Ainda que não seja o mesmo. Sim, Paulo, eu te amo.

E sempre amarei.

*****


Um texto para aqueles que, no dia do Amar, comemoram o primeiro amor: o próprio. Ao som da mais linda balada de amor do ano.


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