sexta-feira, 18 de julho de 2014

Velhos hábitos não morrem


Velhos hábitos não morrem, querido Lancaster. Sinto sua falta, e você está tão longe de mim e as noites frias de Maringá já não são mais as mesmas sem sua presença contagiante para me animar. Posso jurar, meu irmão, que as cervejas e os petiscos não têm o mesmo sabor sem você, se tornaram insossos e indigestos sem suas palavras que me conhecem tão bem. Escrevo esta breve carta para saber como andas. Está tudo certo em sua velha cidade? Como vão os velhos amigos? Lembro-me de ter visto em algum lugar, ou ouvido, que tem se divertido às favas e me alegro de pensar em teu sorriso que me acompanhou por tanto tempo. Entristeço-me de não poder vê-lo e sorrir junto de ti das piadas que trocávamos.
Tenho, também, escrito para lhe dizer como passei os últimos dias, além da inumana indiferença que me martirizou. Meus velhos hábitos não morrem, exceto os bons, como o gosto para os vinhos, e hoje fumo meus cigarros sem poder degustar do amargo sabor que tanto nos aqueceu nos momentos fúnebres. E tenho vivido fúnebre e nostálgico, como num flashback obsceno de algum cinema de mal gosto. Tenho procurado incessantemente aquela velha sensação, aquela velha droga que experimentei e que você tanto me alertou para deixar quieta. Ah, Lancaster, meu querido irmão, por favor me perdoe pela minha tolice, e me perdoe pela minha incredulidade. Veja no que me tornei: um drogado de merda preso numa abstinência doentia. Falta-me a espontaneidade em sorrir, em me jogar aos ventos como adorava fazer e sentir o meu corpo fluir num traquejo tão inconsciente e profundo onde tudo parece seguir e traçar um caminho tão vivo e puro. Falta-me a ordem da vida, e a sensação de que tudo vai bem em seu lugar, quase que embriagado, e um tanto alegre, permitindo que o tempo corra suavemente por mim para que eu o beba como um sedento andarilho, aproveitando cada gota e implorando para que esta bebida jamais acabe, jamais acabe.
Não tenho o gosto pelo comer, senão medo pelo engordar. Não tenho gosto pelo vestir, senão a paranoia dos comentários alheios. Estes imundos manequins que me cerceiam a alma tão livre quanto de uma corsa. Estou ferido, nas patas, por uma flecha envenenada, e pouco a pouco definho, na escuridão da minha alma. Falta-me você, Lancaster, para dizer que tudo ficará bem e me ajudar a passar por estes maus agouros. Mas você se foi, e deixou sua casa vazia. Tomei um antigo cd de música para manter a lembrança de nossos momentos incrustrada em meus olhos e córtex, pois nestes tempos difíceis, tudo me foge à cabeça senão uma dor que nasce no cerne dos olhos e corrói-me por dentro como verme.
Mas deixa, Lancaster, deixa que as coisas se ajeitam. A vida se ajeita. A vida de por quem definho se ajeitou, ou minto? Sua vida se ajeitou, não é? Espero que sim. Até lá, as tequilas, as cervejadas, os cigarros e as drogas, ah!, estas serão sempre vagas e opacas, sempre insossas e desinteressantes. Mero passar de tempo, e não passatempo. Até lá, as festas, os risos, as piadas serão sempre cinzas como este cinema horrível em que me encontro preso, fruto duma mente trash perturbada. Minha esperança, meu querido, é que, se não hei de ter um final feliz, que meus dias terminem como um filme de Almodóvar, como uma lição aprendida, mesmo que tardia e nada mais se possa ser feito.

Desejo-lhe tudo, e muita vida, e mando-lhe um abraço.
Sinto sua falta.


Querido, Lancaster.

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