As garotas da praia andam de shorts e blusinha justa. Fumo meu Marlboro Ice, uso salto 15 e prendo meu cabelo num coque malfeito. Não preciso andar bonita, porra. Preciso é de dinheiro, e de cigarros e de bebida. Na Costa Oeste, é como dizem, ou você bebe ou está fora. Aqui, os viadinhos andam de Porsche conversível, Rayban dourado e não sabem o que é camiseta. Buzinam para qualquer uma que passa, como se fossem cadelas. Fecho a jaqueta de couro, corrijo o batom vermelho e ajusto a meia-calça rasgada. A noite sempre esfria, nos últimos dias. Preciso é de dinheiro, e de cigarros e de bebida.
Melany esperava no bar,
sentada na mureta de tijolos gastos, bebendo vinho barato e fumando cigarro filtro
amarelo. Tinha os cabelos cortados de um lado e grandes de outro, e olhos muito
bem delineados. Tá pronta, gata?,
disse. Quase. Pedi uma pinga amarga,
para aquecer os músculos. Ela sorriu para mim, e duvida que eu consigo. Mas eu
consigo. Passei o mês inteiro planejando essa noite, não iria foder.
Não
tardou para que Deise chegasse. Sempre escrota, sem saber ponderar, parecia uma
drag queen. Nojenta. Mas o plano era
fácil, nada que não conseguissem com suas belezas: atrair os otários e roubar
deles todo puto que tivessem nos bolsos, e nos carros. Tinham de ser rápidas, e
violentas. Podia sentir o estilete guardado no bolso de trás do shorts
apertado, que delineava sua bunda. Nas bulevares beira-mar, o trânsito era
intenso — e o comércio de putas também — ninguém iria perceber o que fariam por
lá. Deise pediu um dry martini. Acha que
tem classe.
— Vamos pela St. John
Boulevard e a gente para perto da praia, naquele quiosque que a essa hora tá
fechado. Lá é um espaço maneiro — pigarreou e tragou a cigarrilha, Deise era
mesmo desprezível.
— Tanto faz, o que importa é o
dinheiro. Hoje tá bom, tá filé. Vi muitos passando pela cidade e alguns até
mexeram comigo. Quero vendeta. —
Arreganhei os dentes amarelados e gastos e lambi-os com minha língua grossa.
Tudo tinha um sabor especial, e eu o degustaria até o fim. Melany era rebuscada demais para opinar, tava
ali pra alimentar o filho, então, pouco importava o ponto ou os caras. Parecia
esconder, atrás dos olhos delineados, uma segunda intenção sobre tudo aquilo.
Pagamos a conta e saímos do
bar. Atravessamos a avenida e caminhamos por ruas iluminadas e com casarões
abastados dos mais variados tipos. Fumavam os cigarros e falavam alto, pulando,
cantando e desfilando “como as cocotes da classe alta”. Naquela época do ano,
as noites eram frescas na Costa Oeste, e as infindáveis ruas da cidade ficavam
vazias, esquecidas entre paisagens quietas e melancólicas. O movimento se
concentrava no centro da cidade, e nas águas da praia, que carregavam ainda o
calor da tarde. As raves na areia, as
drogas e o sexo. Embrenhado nos bairros, o único movimento era na capela local.
As garotas passaram do seu jeito, arrancando comentários grosseiros e olhadelas
feias. Fodam-se, seus malditos, e
mostraram os dedos.
— Sabe — disse Melany, cigarro
na mão e roendo a unha — Desde que o Jim me deixou para trás, eu tô precisando
sair e relaxar, meninas. Deixei o Tommy com a mãe do Jim e falei que ia pro
centro trabalhar de garçonete. Não tá fácil, mas eu quero uma noite para
aproveitar o que eu tenho, enquanto eu tenho.
As palavras de Melany saíram
carregadas de raiva, angústia, quase num murmúrio estressado e carregado de
sotaque, não da língua, mas da alma. Aquele sotaque que carrega todas as nossas
mensagens com nossas emoções, e nos trai nos piores momentos para as pessoas
com quem conversamos. Deise pareceu não se importar, mas deu um tapinha nas
costas enquanto mexia na bolsinha para encontrar alguma coisa.
— Hoje é nossa noite, Mel.
Também quero foder uns otários — disse, sorrindo e despreocupada. Tudo parecia
fluir naturalmente para mim, como se toda a violência que corresse em meu corpo
fosse advinda dele, fabricada nele e eu fosse seu fruto — E aí a gente consegue
o dinheiro pro Tommy, você vai ver.
Deise continuou a procurar em
sua bolsa por mais um instante e retirou, triunfante, um envelope de papel meio
amassado. Estava amarelado de tão antigo e algo estava escrito na sua parte
posterior. Com habilidade, retirou um beck bem bolado e sorriu para as outras.
Se entreolharam, a noite prometia correr sem grandes problemas. E com lucro.
Minha mãe me ensinou, há muito tempo, que uma mulher não deve depender de um
homem. Ela e minha tia eram duas amarguradas com seus maridos e, portanto,
passaram minha adolescência inteira tecendo conselhos e impropérios contra
quaisquer que fossem os homens. De tudo isso, apreendi o que valia a pena:
aprendi que não devo confiar em nenhum deles, nem depender. E é por isso que
decidi transformar minha noite de sábado na melhor oportunidade em arrancar
dinheiro deles.
Fumei o beck e, quase que de imediato,
tudo ficou mais leve. Tinha um levo gosto amargo no final, mais forte, quase
como mel escuro, da minha infância. Senti cada parte de mim, cada pulsação do
meu coração — uma pulsação nervosa, ansiosa. Quase violenta. Sim, violenta. Em
menos de um minuto, andávamos cambaleando, rindo como loucas e mexendo com
qualquer mendigo que passasse na rua. Filhos
da puta, gritamos. Se antes tínhamos a motivação para fazermos o que
faríamos, agora, tínhamos a coragem. A coragem e a despreocupação.
— Vou sangrar eles, eu vou
sangrar eles, vocês vão ver — risadas. Traguei e baforei longamente, revirando
os olhos e permitindo que meu próprio corpo entorpecido revirasse em si.
— Acha que conseguimos roubar
um carro? — Deise tragava e me olhava concentrada, os olhos faiscando. — Queria
dar uma voltinha.
— Consigo o que eu quiser.
O ponto do quiosque era uma
birosca quase que abandonada naquela hora. Um traveco batia ponto, alto, forte
e muito maquiado: suas pernas eram mais torneadas que a de qualquer pessoa que
já vira antes. Balançava lento como brisa que soprava. Seu perfume era pura
maresia, suor e cigarro vagabundo.
— Olá, garotas — chupou os
lábios e sorriu — Novas aqui?
— Sim — Melany beijou a no
rosto como uma cocote. Acendeu um cigarro. Por um momento, o travesti observou-a,
e depois Deise, e depois a mim. Olhava curiosa, a sobrancelha erguida num misto
de desejo e inveja. Definitivamente, eu poderia parecer uma vagabunda barata,
mas, ao menos, menos do que ele.
— O movimento tá fraco,
hoje... tudo por causa daquela rave na
Big Rock. Um ou outro velho passaram aqui, só. — fez uma pausa — Mas, sabe como
é...
Por um momento, um silêncio se
espalhou sobre o quiosque — só o vento a soprar e as ondas do mar, ali perto, a
quebrarem e escoarem em seu vai-e-vem hipnótico. Droga, e todas pareciam pensar a mesma coisa.
— De qualquer forma, vamos
ficar. Não volto embora de mãos vazias. — Cruzei os braços e encarei a bulevar
fantasmagórica. Não volto de mãos vazias,
não hoje. Não, não, não hoje. Não cheguei aqui para amarelar, nem para
falhar. O estilete parecia zumbir em meu bolso e minha mente, pouco a pouco, se
fixava nele, em sua lâmina, em seu poder.
Não demorou para que Deise, é óbvio, começasse
a conversar entusiasmada com o travesti. Não havia ali, porém, qualquer
vestígio de interesse em conhecê-lo senão de gastar o tempo que esperávamos o
movimento de alguma forma. Passados um tempo daquela enrolação, um primeiro
carro apareceu à vista. Corria desesperado, quebrando o ar, levantando poeira.
E como um trovão, passou. Dois caras e algumas biscatinhas burras ouvindo algum
hit pra fritar com suas roupas de grife e corpos sarados. Odeio eles. Odeio
todos eles. E vou roubá-los.
Um segundo carro vinha.
Arrumei o coque e, enquanto os outros finalmente davam conta deste novo
visitante, me dobrei para alcançar os pés. Mostre a bunda. O contorno
arrebitado do volume e o shorts enfincando na virilha, desconfortável. Pareceu
manter seu ritmo, mas parou quase que de imediato. Um playboy num Porsche conversível. Sorri.
— Vai querer algo? —
perguntei, me debruçando sobre a porta e soltando o coque. Deise e Melany se
aproximaram. — O travesti, não, é claro.
Sabia que me olharia de
atravessado, num misto de raiva e ódio, mas não me importava. Na Costa Oeste, é
como dizem, otários não tem vez. Travestis ou ricaços. Entra. De cabeço desarrumado, camisa colada e shorts de praia;
senti o seu perfume amargo e o cheiro da bebida tão logo entrei no carro e
coloquei as pernas para fora. Engraçado como as coisas são, antes de partir
pareceu reconsiderar — eu vi naqueles olhos meio drogados meio moribundos a
dúvida que perpassa no breve segundo da hesitação — mas, ignorando a dúvida,
acelerou.
—
Então, gata, o que acha de me chupar? — pude ouvi-lo falar entre o grito
exasperante do vento causado pela enorme velocidade do carro. Afrouxei seu
shorts e coloquei a mão em sua cueca, beijando sua bochecha e sussurrando em
seu ouvido. Para o carro aqui na praia,
vamos curtir. E, então, diminuiu a velocidade e estacionou o carro em cima
da calçada, sem a menor coordenação. — Você é linda. Fecha os olhos e aproveita.
Mal fechou os olhos, e
coloquei seu pau para fora, saquei o estilete e o apertei contra a sua
garganta, dando-lhe uma joelhada no meio das pernas. Ele urrou e olhou para mim
num misto de surpresa, medo e raiva. Mas meus olhos queimavam e a única coisa
que conseguia dizer, incontrolavelmente, era Vou foder você, seu otário e filho duma puta. Eu quero a sua grana.
E, por um instante, ele tentou me desarmar. Enfiei o estilete do lado do seu
pescoço e puxei, criando um rasgo. Outro urro e ele me empurrou para trás.
Voltei a pular em cima do imbecil enquanto levava as mãos ao pescoço e dei-lhe
uma estiletada na barriga. Outra estiletada na barriga. E tomei um soco ensanguentado
na cara. Mas o fiz esguichar como um porco, um porco que ele era. Drogado de merda. Sua puta maníaca, e
cuspiu sangue além dos borbotões que escorriam. Num último fôlego de
adrenalina, pulou sobre mim com as mãos em meus pescoços. Senti um fogo crescer
em minha garganta, uma dor que crescia da alma para a pele e estourava em pura
brasa. Com o joelho em meus peitos, levantou o punho e me socou. Uma, duas,
três, quatro, cinco vezes. E caiu para o lado, agonizando. Antes de jogá-lo na
rua, ainda o cortei outras vezes, com ódio, e gritei para os céus. Eu ganhei essa, fodido.
Alguns milhares em dinheiro,
correntes de prata e ouro e as chaves do carro. A brisa quando se dirige um
Mercedes é bem melhor do que quando se pega carona. Não demorou para que eu
chegasse ao quiosque e visse Melany e Deise a espera de mais algum riquinho
burro. Parei o carro discretamente numa rua adjacente e fui caminhando até o
quiosque. Cambaleava e sangue escorria do meu nariz e da minha boca. Não sei como não perdi um dente. E a
porra do meu peito doía, por causa do filho da puta. Havia sangue em minhas
roupas que esguichara em mim quando o matei. Eu o matei? Quando abandonei o
corpo agonizando, estava vivo. Não, não o matei.
— O que aconteceu, sua maluca?
Achei que íamos as três! Que porra de sangue é esse? Fala logo! — Melany estava
uma pilha de nervos e me olhava de cabo a rabo. Vá se foder, eu estou bem também, tá? Matei o viado.
O travesti ouviu e, na fração
de um milésimo, não esboçou reação, mas lentamente acabou recuando um passo e
outro. Percebi com o canto do olho.
— Eu já te explico o que
aconteceu, mas... — e abaixei o tom — me ajudem a acabar com esse bosta aí
atrás antes que nos dedure.
E num instante estávamos os
quatro correndo pelo calçadão. Não demorou para que o travesti caísse com os
saltos e começasse a se arrastar como um animal. Pulei em suas costas e lhe
enfiei o estilete sob o osso dos ombros. Urrou de dor e chutei sua cabeça e seu
corpo. Deise e Melany me acompanharam e chutávamos tudo o que podíamos ver.
Nada podia dar errado, nem que eu tivesse que matar para isso. Não parei até
ver sangue. Desmaiado e fodido da cabeça ao pé, carregamos ele e o jogamos
dentro do banheiro sujo do quiosque abandonado. Fedia a mijo e pobre, dos
mendigos que o usavam.
— Porra, o que foi isso
caralho? Você ficou maluca? — Melany gritava.
— Cala a boca, otária. Não
queria a porra do dinheiro? Consegui uma boa grana, e nem foi tão difícil
assim. — o meu rosto latejava, com uma puta dor. Deveria ter lhe serrado os
dedos para que não me socasse. Estralei o pescoço. — Vamos, arranjei um
Mercedes. Não vamos conseguir nenhum boyzinho comigo ensanguentada. Tenho um
outro plano.
— Eu não sei se quero mais
isso — Deise hesitou, pegou um cigarro e acendeu. Seus olhos brilhavam um medo
irracional (a mesma expressão que eu vira nos olhos do filho da puta morto).
Agarrei-a pelo colarinho e colei meu rosto ao seu.
— Olha aqui, sua vadia. Nós
chegamos até aqui, não? Você sabia do plano, sabia que o iríamos fazer. Qual o
problema? Ou prefere continuar essa vida fodida que você leva, sendo doméstica?
Bem, nem todo mundo nasceu para se dar bem e você vai continuar sendo esse lixo
o resto da vida, pelo jeito.
— VÁ SE FODER.
— VÁ VOCÊ. — e meti um soco.
— Chega! Parem vocês. Deise,
por favor, não piora. — se colocou entre nós, com sua mão estendida em meu
peito e a outra ajudando Deise a se levantar. Deise, Deise. A fraca, a burra, a ordinária. Não duvido que, se
tivesse ela em meu lugar naquele Porsche, agora, não passaria de um pedaço de
carne para vermes. — Eu tô dentro, vamos continuar o nosso esquema... se você
quiser ir, Deise, sabe a regra: se dedurar, perdeu.
— Não. Eu... eu vou com
vocês... mas, pelo amor de Deus, precisava ter matado ele mesmo? E o travesti?
— Vamos.
Tão logo chegamos no Porsche,
pulamos para dentro. Havia sangue no estofado e esguichos em várias partes.
Melany e Deise sentaram atrás, longe das manchas, e saímos cantando os pneus.
Passamos na frente da capela local, agora vazia, buzinando e gritando contra
aqueles bastardos. Um dia fodo esse lugar.
E seguimos as ruas dos bairros ricos, todas vazias e silenciosas, em alta
velocidade, fazendo tudo se transformar num borrão insignificante. Andamos por
poucos minutos até estacionar numa ruela sem saída. Coloquei o carro o máximo
possível escondido das luzes e, me dando por satisfeita, seguimos a outra rua
abaixo em direção ao centro. Meus planos haviam mudado; com o sangue e tudo que
eu havia passado para matar o viado, precisava de algumas vítimas mais fáceis
e, ao mesmo tempo, igualmente ricas.
Deise e Melany dividiam alguns
cigarros que sobraram da noite e conversavam baixo algum assunto
insignificante. Mas eu sabia que Deise tremia, mesmo que não aparentemente. Há
algum tempo já não via mais nela aquele espírito que eu havia conhecido ferrado
num bar bebendo para facilitar a vida de doméstica sem ter onde cair ou se
enfiar senão num quartinho maltrapilho da casa da perua. Foi, então, que meu
desprezo começou a fomentar contra Deise; essa raiva sem motivo, essa vontade
de puxar seus cabelos e lhe quebrar todos os dentes o quanto possíveis. Ela
tinha potencial. Tinha potencial para ser algo, para ser alguém. Mas preferiu
ser a vítima. Eu tenho um remédio para isso.
Calma, disse Melany, esbaforida. Qual o plano? Olhei-a e sorri. Contei rapidamente em seu ouvido e
senti Mel pesar as palavras que ouvia com uma cautela redobrada. Não, ela não
era aquilo que eu desejava que fosse: inteiramente livre para mergulhar de
cabeça no que estávamos fazendo. Sua situação, no entanto, era palha suficiente
para que alimentasse o fogo das suas necessidades e enquanto estivesse na merda
ela faria o necessário para supri-las. Melany sorriu, cumplice.
— Não acredito que você
estacionou o carro aqui, James! — uma voz ríspida cortou o leve vento noturno e
paramos. Vinha da rua concorrente. — Que ideia idiota.
— Cale a boca, Idina. Vamos
logo para o carro.
E tudo fluiu. Chequei o meu
estilete no bolso ensanguentado e, sentindo-o, segui em direção a esquina com
um andar afetado, e olhar suplicante. Assim que me virei, avistei o casal de
ricaços branquelos, no máximo uns 50, ou a porra do Botox, de bengala e vestido
com olhares esbugalhados de medo. A dondoca segurou um grito e levou as mãos à
boca. Otária.
— Vocês podem me ajudar? Por
favor? — supliquei enquanto tropeçava como uma infeliz nos próprios pés — Ele
me pegou... socorro, por favor. Chamem a polícia.
— Ai meu Deus! — a velhoca
chiou histérica.
— Quieta, Idina. Deus, minha
filha, o que te aconteceu?
Apesar do medo que exalava
como o fedor dum gambá, o velho se aproximou e, no instante em que se agachou
para me socorrer, cravei-lhe o estilete no peito. Seus olhos esbugalharam de
surpresa. E pavor, pavor pelo meu sorriso, pelo meu ódio, pela minha vontade de
transformá-lo em pura pasta. Em puro animal desfigurado.
— Obrigado pela ajuda, velhote
— puxei o estilete aumentando o rasgo, sentindo a carne cortar pouco a pouco, e
o sangue quente espalhar por minhas mãos. Ah, este calor tão aconchegante e
vivo, que jorrava para a fria calçada e noite. Levantei-me enquanto me
ajeitava. A dondoca estava presa pelos braços por Mel e Deise que lhe tapavam a
bocona deformada pela plástica. Tomei a liberdade de pegar o lenço que o marido
moribundo carregava em seu bolso do paletó.
— Bonito vestido, vadia. Vou
fazer bom uso dele.
Mel destampou-lhe a boca, num
espaço mínimo de tempo em que pudesse gritar alguma asneira, e meti-lhe o lenço
na boca, afundando-lhe pela goela. A velha se debateu, tentando cuspi-lo, mas
forcei-o com a mão para dentro. E, então, senti uma dor aguda que subia por
minha mão como um ferro perfurante onde a vagabunda me mordia os dedos. Soquei
sua cara algumas vezes, enquanto continuava a forçar o lento e sentia o vômito
subir-lhe o esôfago. Engasgava dentro de si, trepidando e revirando os olhos
bufa, desesperada, se debatendo ensandecida, mas forcei ainda mais a mão, mesmo
que sentisse a carne dos meus dedos serem perfuradas e meti-lhe um último soco.
Caiu dura no chão, engasgada, imóvel.
— CRETINA, VOCÊ ME MORDEU. —
Um, dois, três chutes. Um grito distorcido de ódio, de dor, vermelho como meu
ódio e meu sangue, e a violência que me alimentava. Outro grito.
— Quieta, vão acabar nos
ouvindo e seremos presas — Deise e Mel me puxaram, mas tudo o que eu queria era
o vestido limpo. Limpo para poder andar e finalizar minha noite sem grandes
preocupações. Nada daria errado. Não depois donde eu chegara.
Sabe, retirar minha blusa e
deixar que meus peitos caíssem livres e soltos das amarras do meu sutiã
pareciam o paraíso para mim. Os bicos duros pelo frio, e a brisa que me
percorreu a espinha me fizeram respirar fundo e alto. As costelas saltadas, os
hematomas recentes, o sangue da pele, o corte no rosto, os pelos eriçados, as
veias saltadas. Sim, Ruby, esta sou eu. Minhas marcas de guerra, minhas marcas
de vida. Minha cor e minha pele, minha identidade. Escondi-os sob o pano fino e
longo.
— E não é que essa porra ficou
boa com sua meia-calça, vadia? E agora?
— Agora, precisamos ir ao
centro. Alguém deseja procurar o carro do Sr. e Sra. Esganados?
Não demorou para acharmos uma
bela Mercedes anos 70 estacionada num canto qualquer no outro quarteirão e,
pisando no acelerador, fritei os pneus nas bulevares em direção aos prédios do
centro. Durante as raves, é difícil encontrar muitas pessoas que andam pelas
ruas dentre os prédios, senão grupelhos esparsos e desinteressantes. Todos
vivendo suas vidinhas tão certas e erradas ao mesmo tempo. Pouco pagam e se
importam por realmente enxergar o que são e o que fazem, ou o que deixam de ser
ou fazer. Vivem e seguem vivendo, no mesmo ritmo, no mesmo carma, como bichos
de abate, amamentados até engordarem, vivendo num paraíso, até que a morte lhes
ceife o que, devendo ter muito valor, lhes é, na verdade, banal: suas vidas.
Vidas de porcos.
— Onde estamos indo?
— Quieta, já vamos chegar.
— Eu gostaria de saber,
afinal...
— POR QUE VOCÊ NÃO CALA A
PORRA DESSA SUA BOCA? Não sei como ainda não te fodi eu mesma, Deise. Sempre
reclamando. Bosta, vamos terminar essa porra de noite e voltar para nossas
casas. Quero vender essas joias que roubamos. Ou você não quer a porra do
dinheiro que nos fodemos pra conseguir?
— Chega — disse Mel, quase
sussurrando — Chega dessa gritaria. Vamos terminar com isso logo, quero o
dinheiro, tomar um banho e dormir. Só isso. E cigarros, pelo amor de Deus, pare
numa conveniência.
Parei na entrada duma sarjeta.
Saímos do carro, as duas se entreolhando, e percorri o caminho confiante.
Conhecia um cara, daquelas bandas, Phil, um drogado desses de merda, que
comprava joias e coisas roubadas por um preço bom o bastante para pagar o que
precisávamos. E, claro, me devia um favor, que me retribuiria ainda hoje. Podia
sentir o gosto azedo na boca e, saboreando-o com calma, continuei em frente.
Mel e Deise pareciam me seguir com cautela, os passos mais contidos, e suas
sombras curvadas. Cochichavam alguma coisa, mas não importava. Onde consigo
cigarros?
Não demorou para avistar oito
ou nove vadios, fumando pedra, cheirando pó e fumando marafo. Me encostei na
parede, de peito empinado, enquanto Phil vinha em minha direção.
— O que uma donzela como você
faz aqui, delícia? — sorriu com seus dentes pretos e gengivas podres. Fedia
putrefato. Quis vomitar, mas contive minha ânsia.
— Não se lembra mais de mim,
seu fodido?
Cerrou os olhos e o punho, e
me agarrou pelo colarinho. Rosto a rosto. Olho no olho. O ódio transbordando em
seu rosto. Por um segundo, me apertou
com uma força violenta e realmente me feriu, mas por fim me reconheceu. Você por aqui? E soltou-me. Não, seu fodido. É claro que sim, sentiu
minha falta? Sorri e o abracei. Fedia sovaco.
— O que tá fazendo aqui, minha
rainha?
— Deixa de ser otário, tenho
umas coisinhas para você — tirei as joias do viadinho da minha jaqueta e o
Rolex puro ouro do velho botox. Seus olhos brilharam de ganância. Coloquei em
suas mãos e sussurrei em seu ouvido, quase lambendo-o. Queria que me entendesse
perfeitamente. Sorriu com malícia, lambendo os dentes e a gengiva pretos.
— Só isso? Hoje o esquema tava fácil.
— Fácil como tirar doce de
criança. Você pode fazer isso para mim?
— Vou pegar a grana.
Com as joias nos bolsos, foi
em direção aos outros fodidos. Fiz um gesto para que Melany e Deise se
aproximassem. As duas se aproximaram como animais acuados, mas sabia que,
apesar da novidade de estarem num lugar tão perigoso, Mel me olhava com
confiança em meu plano. Sim, Mel podia não ser perfeita, mas eu também poderia
podá-la e moldá-la para um dia, quem sabe, ser igual a mim.
— Me dê sua bolsa, Deise.
Deise me entregou sua bolsa
sem pestanejar. Seus dedos tremiam, suas pernas tremiam. Fedia a rato. Fedia a
covarde. Sua maquiagem borrada, de medo e de choro, da noite. Seu cheiro de
rato e cigarro. Seu cheiro de menina, não de mulher. Mas, sim, Deise aprenderia
a ser mulher, nesta mesma noite. Certa vez, ouvi duma mulher que cuidara de mim
quando minha mãe estava prestes a morrer que precisamos ser fortes como
montanhas em que, nem o tempo nem o terremoto, abalam. E quando não o somos,
precisamos fingir sê-lo, vender nosso peixe. Mentir com os olhos e enfrentá-lo
sem hesitar, sem nada a perder. Eu não tenho nada a perder, mas Deise tem. Tem
de perder o cheiro de menina e aprender a ser mulher.
— Aqui está — ele reapareceu,
sinistro.
Tomei o dinheiro em mãos.
Cinco mil livre. Melhor do que nada. Sorri e abracei-o. Phil não era nada senão
um drogado, mas, a vida é curiosa!, quando uma mulher indefesa se junta a um
drogado perigoso e ambos conspiram contra a vida, é aí que a beleza desta velha
costa reside. É aqui, entre as pessoas de verdade, as viciadas, as falidas, as
fodidas e as que enfrentam o medo que todas as outras em suas vidas perfeitas
encobrem com dinheiro, risadas e compromissos, respiram o ar venenoso dessa
cidade. Vida e morte. Praia e cidade. Humanos e manequins. Fodidos e ricaços.
Boas-vindas a Costa Oeste. Coloquei o dinheiro na bolsa e girei os calcanhares.
Mel me acompanhou.
Deise, por sua vez, gritou.
Estava assustada, entre os braços de Phil, e outros caras que se aproximavam. Meninas, me ajudem. Me larga seu imundo.
Socorro. Não olhei para trás. Deise? Outro
grito. Socorro! Deixe ela, Melany. Ela
tem de aprender uma lição. Vou te foder bastante, sua vadia, para você aprender
a ser mulher. Outro grito. Melany!
Deixe ela, Melany. Passos. Uma lata de lixo virada. Outro grito. Venha, Melany, não é mais da nossa conta.
Suas biscates! Socorro! Vocês me pagam. Vou te foder todinha, você vai gritar
meu nome a noite inteira. Caminhei até a saída da sarjeta. Melany corria
apressada ao meu lado, os olhos em lágrimas. Podia ouvir os gritos de dor, os
urros animalescos de Deise sendo estuprada por um, dois ou três homens, juntos
ou não. Não me importava. Não era da nossa conta.
— Como... como você pôde,
Ruby? Como você pode deixar que fizessem isso a ela?
— Eu deixei? Não é da nossa
conta, Melany. Ou você quer apartá-los, e quem sabe ser estuprada, também? Eu
não fiz isso a ela, eles fizeram. Tome seus cigarros. E vamos. Sem olhar para
trás.
Os gritos de Deise sumiram
entre o vento que cortava a noite. O Mercedes corria alucinado pelas bulevares
da cidade e a praia, pela primeira vez dentre anos, estava bela, com o nascer
do sol avermelhado que anunciava um novo dia. Ultraviolência. Na Costa Oeste, é
como dizem, não há vez para otários. Ricaços, travestis, velhacos ou biscates.
Todos se fodem. Só há vez para nós, como eu e Melany. Para os fortes.

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