sábado, 2 de agosto de 2014

O terminal de ônibus


Tinha uma mania que hei de contar aqui, e me é pitoresca. Costumava observar, a espera do meu ônibus, nos pontos ou no Terminal, o fluxo de pessoas que jamais cessava. Se de início, este meu hábito era um divertimento para se passar o tempo de espera, e findar de vez os tediosos minutos que me permitia fixar minha mente no nada, e absolutamente nada, com o tempo passei a encontrar cá uma atividade interessante. Tornei-me fascinado pela beleza, não por esta formatada e encaixotada pronta para o consumo como um fast-food que ingerimos e digerimos com frivolidade, mas este tipo de beleza que corre aos olhares atentos e curiosos, como os de gatos.
Recordo certa feita uma mulher morena e alta, de cabelos grossos e ondulados, lábios carnudos e olhos grandes. O conjunto desarmonioso, em seu rosto longo e fino, soava como uma guitarra desafinada; ou parecia soar, como creio hoje. Se observada ponto a ponto, como naquele dia me peguei o fazendo, a morena, que mais parecia uma drag do que realmente uma mulher, tinha uma beleza que considero inquestionável. Quer fossem seus olhos pintados, chamativos como duas enormes bolotas brilhantes, ou seus lábios fartos, existia nesses pequenos pedaços uma beleza exótica, não bela por ser exótica, mas exótica por ser, escondida sob o pretexto do todo, bela. Os olhos daquela morena, que corriam daqui a acolá, marcaram minha mente até hoje.
Existe uma fagulha no olhar, um reflexo da alma, que alguns consideram etérea, mas, para mim, é uma metáfora de nossa consciência e humanidade — em suas qualidades das mais modernas as mais instintivas — que cativa e apaixona quem a observa. É nessa fagulha, ou no combustível que a explode, que reside a verdadeira beleza de alguém. No sorrir, ou chorar, com os olhos, e se derramar de amores ou de ódios, e os olhos que sentem e sofrem, esbugalhados ou miúdos. São os olhos que falam, que berram!, as palavras mais profundas e humanas, que nossas pregas vocais jamais darão som, por serem mecânicas como nossa respiração, e nos fazem verter amores pelos sucintos momentos em que os fitamos e os bebemos como se fossem águas para matar a sede. Fico a pensar o que aqueles olhos tão grandes fitavam e pensavam, gritavam!, no interior de sua consciência e quais as paixões que vivenciara.
Também me lembro de um certo rapaz, do rosto quadrado e um pouco afinado, uma boca ligeiramente zombeteira e de olhos vivos. Não parecia ser digno de atenção por qualquer um que cruzasse seu caminho, que caminho?, mas parecia residir em sua leve zombeteira um ar de sensualidade galante, e até uma infantilidade comedida, mas latente, que o tornava encantador. Poderia observá-lo a esperar e tomar seu caminho, e os minutos de minha espera seriam menos tediosos, e a zombeteira de sua boca levemente acentuada seriam como uma piada tão cômica quanto cócegas que nos fazem rir como crianças travessas. São os olhos, novamente, que conferiam ao rapaz a sensualidade não vulgar que tão poucos parecem manter, e não permitiam que sua zombeteira se tornasse escárnio, frutos dum olhar opaco e escuro. Seus olhos vivos, de nenhum formato em específico que o tornasse único, mas de um ar infante e travesso, e irremediavelmente conquistador, davam a beleza que muitos jamais cogitaram citar; só os olhares de gatos, gatos curiosos e vira-latas que fuçam os cantos e andam nos muros é que podem, e conseguem, observar essa tênue estética, esse emaranhado de linhas, cores, texturas e detalhes que se mesclam e combinam numa arte única, às vezes obscena e às vezes inusitada, mas muitas vezes não mais que interessante, e digna de ser notada.
Quando dei por mim, o que antes era um trabalho e uma obrigação, as esperas de ônibus pela cidade, se tornaram um hobbie dos mais interessantes que me propusera a ter até então. Se tivesse uma câmera na época, juro que sairia clicando as pessoas, todas essas pessoas que as observasse e me interessante em um ponto, ou na sua sinfonia escandalosamente desarmoniosa, para compor um álbum de fotografias e guardá-las embaixo da cama, como guardamos as cartas de quem amamos e temos em alta conta. A menina de cabelos encaracolados e armados, o branquelo de sardas e rosto quadrado, a preta senhora em seus sapatos surrados e pernas marcadas, o homem de simetria perfeita e olhos altivos, a moça magérrima de boca fina e melancolia lânguida. Perdi-me na multidão, naquela época, e, se não fosse o senso que urgia a necessidade de manter a mínima atenção à chegada do ônibus, poderia facilmente ter me deixado levar pelo fluxo incessante de figuras pitorescas e tragicômicas do quotidiano.
Tempos depois que fui perceber, quando já não tomava mais ônibus, e tinha a liberdade de ir e vir quando quisesse, que sentar-me acolá e observar as pessoas criara uma percepção de beleza em mim que, não original, é claro, foge ao que costumo ouvir, e ver, e saber. Não são as palavras, nem os cabelos penteados, ou os dentes que brilham que cerram a beleza de alguém. São as fagulhas que explodem, e gritam, e berram, e se descabelam, nos pequenos detalhes que corremos os olhos para, finalizarem, nos próprios, as suas histórias, os seus detalhes, os seus pormenores, aquelas linhas escondidas e pintas ocultadas que descobrimos no calor da intimidade e nos apaixonamos embriagados, e desejamos bebê-las sedentos por mais e mais. Há muito que procurei por tais olhos, por tais águas que me saciassem, que me afogassem e me submergissem na infinidade da humanidade que temos em nós, na beleza que se revela a cada dia. E miserável por encontrá-los, por me encontrar neles, me fiz perder dentre a multidão e o fluxo interminável de pessoas que vêm e vão.
Foi num destes que me parou, você, pedindo um isqueiro. Me empresta o isqueiro? Viu-me fumar. Claro, e um sorriso. Não foi sua boca, mas o calor de seus olhos que me fez retomar a consciência e gritar, para mim e somente para mim: às vezes, buscamos longe demais o que temos perto demais.

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