Tinha uma mania
que hei de contar aqui, e me é pitoresca. Costumava observar, a espera do meu
ônibus, nos pontos ou no Terminal, o fluxo de pessoas que jamais cessava. Se de
início, este meu hábito era um divertimento para se passar o tempo de espera, e
findar de vez os tediosos minutos que me permitia fixar minha mente no nada, e
absolutamente nada, com o tempo passei a encontrar cá uma atividade
interessante. Tornei-me fascinado pela beleza, não por esta formatada e
encaixotada pronta para o consumo como um fast-food
que ingerimos e digerimos com frivolidade, mas este tipo de beleza que corre
aos olhares atentos e curiosos, como os de gatos.
Recordo certa feita
uma mulher morena e alta, de cabelos grossos e ondulados, lábios carnudos e
olhos grandes. O conjunto desarmonioso, em seu rosto longo e fino, soava como
uma guitarra desafinada; ou parecia soar, como creio hoje. Se observada ponto a
ponto, como naquele dia me peguei o fazendo, a morena, que mais parecia uma drag do que realmente uma mulher, tinha
uma beleza que considero inquestionável. Quer fossem seus olhos pintados,
chamativos como duas enormes bolotas brilhantes, ou seus lábios fartos, existia
nesses pequenos pedaços uma beleza exótica, não bela por ser exótica, mas
exótica por ser, escondida sob o pretexto do todo, bela. Os olhos daquela
morena, que corriam daqui a acolá, marcaram minha mente até hoje.
Existe uma
fagulha no olhar, um reflexo da alma, que alguns consideram etérea, mas, para
mim, é uma metáfora de nossa consciência e humanidade — em suas qualidades das
mais modernas as mais instintivas — que cativa e apaixona quem a observa. É
nessa fagulha, ou no combustível que a explode, que reside a verdadeira beleza
de alguém. No sorrir, ou chorar, com os olhos, e se derramar de amores ou de ódios,
e os olhos que sentem e sofrem, esbugalhados ou miúdos. São os olhos que falam,
que berram!, as palavras mais profundas e humanas, que nossas pregas vocais
jamais darão som, por serem mecânicas como nossa respiração, e nos fazem verter
amores pelos sucintos momentos em que os fitamos e os bebemos como se fossem
águas para matar a sede. Fico a pensar o que aqueles olhos tão grandes fitavam
e pensavam, gritavam!, no interior de sua consciência e quais as paixões que
vivenciara.
Também me lembro
de um certo rapaz, do rosto quadrado e um pouco afinado, uma boca ligeiramente
zombeteira e de olhos vivos. Não parecia ser digno de atenção por qualquer um
que cruzasse seu caminho, que caminho?, mas parecia residir em sua leve
zombeteira um ar de sensualidade galante, e até uma infantilidade comedida, mas
latente, que o tornava encantador. Poderia observá-lo a esperar e tomar seu
caminho, e os minutos de minha espera seriam menos tediosos, e a zombeteira de
sua boca levemente acentuada seriam como uma piada tão cômica quanto cócegas
que nos fazem rir como crianças travessas. São os olhos, novamente, que
conferiam ao rapaz a sensualidade não vulgar que tão poucos parecem manter, e
não permitiam que sua zombeteira se tornasse escárnio, frutos dum olhar opaco e
escuro. Seus olhos vivos, de nenhum formato em específico que o tornasse único,
mas de um ar infante e travesso, e irremediavelmente conquistador, davam a
beleza que muitos jamais cogitaram citar; só os olhares de gatos, gatos
curiosos e vira-latas que fuçam os cantos e andam nos muros é que podem, e
conseguem, observar essa tênue estética, esse emaranhado de linhas, cores,
texturas e detalhes que se mesclam e combinam numa arte única, às vezes obscena
e às vezes inusitada, mas muitas vezes não mais que interessante, e digna de
ser notada.
Quando dei por
mim, o que antes era um trabalho e uma obrigação, as esperas de ônibus pela
cidade, se tornaram um hobbie dos
mais interessantes que me propusera a ter até então. Se tivesse uma câmera na
época, juro que sairia clicando as pessoas, todas essas pessoas que as
observasse e me interessante em um ponto, ou na sua sinfonia escandalosamente
desarmoniosa, para compor um álbum de fotografias e guardá-las embaixo da cama,
como guardamos as cartas de quem amamos e temos em alta conta. A menina de
cabelos encaracolados e armados, o branquelo de sardas e rosto quadrado, a
preta senhora em seus sapatos surrados e pernas marcadas, o homem de simetria
perfeita e olhos altivos, a moça magérrima de boca fina e melancolia lânguida.
Perdi-me na multidão, naquela época, e, se não fosse o senso que urgia a
necessidade de manter a mínima atenção à chegada do ônibus, poderia facilmente
ter me deixado levar pelo fluxo incessante de figuras pitorescas e tragicômicas
do quotidiano.
Tempos depois que
fui perceber, quando já não tomava mais ônibus, e tinha a liberdade de ir e vir
quando quisesse, que sentar-me acolá e observar as pessoas criara uma percepção
de beleza em mim que, não original, é claro, foge ao que costumo ouvir, e ver,
e saber. Não são as palavras, nem os cabelos penteados, ou os dentes que
brilham que cerram a beleza de alguém. São as fagulhas que explodem, e gritam,
e berram, e se descabelam, nos pequenos detalhes que corremos os olhos para,
finalizarem, nos próprios, as suas histórias, os seus detalhes, os seus
pormenores, aquelas linhas escondidas e pintas ocultadas que descobrimos no
calor da intimidade e nos apaixonamos embriagados, e desejamos bebê-las
sedentos por mais e mais. Há muito que procurei por tais olhos, por tais águas
que me saciassem, que me afogassem e me submergissem na infinidade da
humanidade que temos em nós, na beleza que se revela a cada dia. E miserável
por encontrá-los, por me encontrar neles, me fiz perder dentre a multidão e o
fluxo interminável de pessoas que vêm e vão.
Foi num destes que me parou, você, pedindo um isqueiro. Me empresta o isqueiro? Viu-me fumar. Claro, e um sorriso. Não foi sua boca, mas o calor de seus olhos que me fez retomar a consciência e gritar, para mim e somente para mim: às vezes, buscamos longe demais o que temos perto demais.
Foi num destes que me parou, você, pedindo um isqueiro. Me empresta o isqueiro? Viu-me fumar. Claro, e um sorriso. Não foi sua boca, mas o calor de seus olhos que me fez retomar a consciência e gritar, para mim e somente para mim: às vezes, buscamos longe demais o que temos perto demais.

Nenhum comentário:
Postar um comentário