FOR A MINUTE THERE
I LOST MYSELF, I LOST MYSELF
Cuidado. A mística polícia do carma pode ser qualquer um. Estar em qualquer um. Não divulgue.
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Existe, sabe,
essa estranha polícia que há meses me persegue. Mimetizada em diversas
aparências, tão subjetivas que passam despercebidas pelos olhares desatentos,
me caça como a um animal, espreitando entre os prédios e carros e buscando me
encurralar entre os muros pichados. A polícia do carma. Há uma campanha
midiática governamental de coerção das pessoas; todos estão intimados a, tendo
ciência de comportamentos anômalos e atitudes desregulares, prestar denúncia e
esclarecimentos ao Departamento de Segurança.
Sou alvo das mais
diversas denúncias, considerado um pária, um traidor, e figuro entre os
primeiros na lista de Indesejáveis públicos. E vivo a me esconder, de casa em
casa, como um eremita ou um fugitivo, como um coelho que foge da raposa. Poucos
são os que me acomodam em suas casas, geralmente os parcos cidadãos desta
imunda cidade que também acordaram para o estranho regimento moral que controla
nossas vidas e nos transforma em máquinas naturais, potencializadas em sua
plenitude ao se cortar o maior dom do homem, sua humanidade.
Alguns anos
atrás, quando Ele e sua corja assumiram o controle do poder, e se fingiam
prometer desenvolvimento e um bem-estar social pleno, deram início ao que hoje
é conhecido como Controle Mental Humano.
Não é um nome conhecido das rodas de bares e cochichos empresariais; é um nome
proibido, escondido sob os pés dos grandes edifícios do Ministério do
Desenvolvimento Social, em seus sombrios laboratórios sociais. Consiste em
implantar determinadas sequências de hábitos, sob influência de variáveis
definidas conforme o estilo de vida moderno, para neutralizar o controle
cerebral da análise crítica, a longo prazo. É forçar o homem a seguir um
quotidiano exaustivo, de ações, pensamentos e ideologias, todas imundas, sem
que pareça ser exaustivo, mas natural. É reconfigurar cada um para aumentar sua
produtividade e sociabilidade, repensando o homem social de antigos filósofos,
e exaurir o homem de suas particularidades sem que este note, ou sinta.
Tenho escondida
em minha mochila, junto dos meus trapos e poucas roupas, uma gravação: Fitter happier. É um antigo protótipo
publicitário que se valia ser uma proposta para conscientização da saúde
humana, enquanto, por entre as linhas, buscava injetar um padrão de vida nas
pessoas saudável, para maior proveito, ao mesmo tempo em que as conduzia a um
único comportamento geral. A mensagem é extremamente subjetiva, e imperceptível
para aqueles tão acostumados a conviver com esse estranho regimento de
comportamentos e sentimentos que nosso governo impõe. Não à toa, a polícia do
carma também o é.
Encarnada sob
forma de homens que trajam uniformes, e portam armas de coerção, tem me seguido
por todo o país. Seu primeiro-homem, o marechal Brenner tomou como suas dores a
minha captura e está em meu encalço sempre que possível. Por assim dizer, nos
confrontamos uma única vez, homem a homem. Perdi, admito, mas consegui fugir e
despistá-lo. Não me esqueço, porém, da estranha personalidade de Brenner, e sua
singular semelhança comigo. Nem de seus olhos, tão pretos e inumanos que me
preencheram não de medo, mas de desespero. Do mais puro e irracional desespero,
fruto do incontrolável instinto primário de todos os seres vivos. Brenner,
porém, me é um enigma. Sua semelhança comigo me permitiu entender que, por
detrás dos gestos comedidos e treinados por toda uma política comportamental
social do Estado, estão uma raiva e um desprezo individualista tão fortes e
brutais que são o combustível para suas ações. O marechal é uma máquina de
guerra sem limites, senão os autoimpostos por si para que mantenha as
aparências, cujo objetivo final é simplesmente a violência pela violência.
Ultraviolência.
Isso me faz
questionar, portanto, a real natureza destes torpes homens que comandam nossas
vidas, e julgam os nossos atos. Homens ímpares que escondem sob uma redoma
blindada suas particularidades e, assim, controlam as particularidades de
outrem para saciar as suas. Não são homens bons, nem seus argumentos são
válidos, mas são sedentos pelo poder político, e se alimentam de seus podres
frutos. São vermes que maturam se alimentando da ferida do animal que habitam;
e crescem, pouco a pouco, e se multiplicam em sua nojeira. Quando forem
grandes, e muitos, invadirão e crescerão ainda mais, até que matem seu
hospedeiro. Seja pelo controle abusivo, seja pelas regras sociais, seja pela
ultraviolência, onde o sangue corre a rua para pintá-la e nada mais.
De acordo com a
Lei, “todos os cidadãos são, obrigatoriamente, parte do efetivo da polícia do
carma, subdivisão extraordinária das forças policiais municipais, estaduais e
federais, possuindo direitos e deveres correspondentes a manutenção da ordem
social e bem-estar geral”. Todos somos polícia do carma; todas as casas nas
quais passei e habitei poucos dias. Os olhares desconfiados, os sussurros
incessantes e as mecânicas sirenes que soam ininterruptamente e paranoicas.
Somos todos responsáveis pelo estranho humor e clima que pairam sobre a
humanidade, e pelas mecanizações que nos tornaram objetos da linha de produção
de uma grande fábrica. E subjetivamos todos às nossas análises, mesmo quando
infringimos a Lei, e não os denunciamos. Sempre condicionados. Sempre
direcionados.
E, durante toda
minha fuga, muitas vezes pensei em desistir. Conheço a pena aplicada aos
chamados Indesejáveis: a neutralização neural por um composto químico, o Quoti. São aplicações contínuas, em
doses tímidas, para acostumar o corpo humano ao sintético agressivo, até doses
cavalares, para total inutilização do objeto. Tão fácil seria, se sob efeito do
Quoti. Tudo deixaria de importar, não
haveria mais dor, não haveria mais raiva, nem medo ou êxtase. Só a existência
vazia e sintética proporcionada pela consciência simulada. Sem jamais ver a luz
do sol, por detrás das grades dos laboratórios sociais subterrâneos. Viveria
como um rei. Sem complicações, e sem surpresas. Mas as suas lembranças, que
permanecem tatuadas em minha mente e coração, não me permitem abandonar essa
transcendental beleza que eu conheci, aproveitei, e vi definhar em tão pouco
tempo.
Você me
proporcionou os melhores momentos desta minha vida, desde antes daquele acidente.
E quando estava no hospital, e o tinha ao meu lado, tudo estava em perfeita
sincronia. Por quê?, pergunto eu em
busca de, até hoje, a resposta que me sane o coração de toda a dor de tê-lo
perdido. Porque algumas coisas, simplesmente, fogem de nossos controles
individualistas e acontecem, e de seu cerne podemos retirar belas lições. Mesmo
assim, sempre que durmo, na cama ou na sarjeta, nunca me esqueço de uma
companhia, e de como seu sorriso aquecia meu coração. E essas belas lembranças
que guardo são o combustível que todos os dias me permitem lutar, e correr, e
me alimentam com a esperança de que vale a pena não desistir. Mesmo que, por um
instante, eu tenha me perdido.
É breve o tempo em que voltarei a encontrar Brenner e sua mística polícia do carma. E é certo que um mesmo erro não ocorre duas vezes. Por mais que tenha minha esperança em você, na beleza de nosso sentimento, sei que o mesmo não é o suficiente contra o que luto. Resta apenas a espera, a longa espera, pelo momento final. Eu estarei cara a cara com Brenner. E terei meu acerto de contas.
É breve o tempo em que voltarei a encontrar Brenner e sua mística polícia do carma. E é certo que um mesmo erro não ocorre duas vezes. Por mais que tenha minha esperança em você, na beleza de nosso sentimento, sei que o mesmo não é o suficiente contra o que luto. Resta apenas a espera, a longa espera, pelo momento final. Eu estarei cara a cara com Brenner. E terei meu acerto de contas.
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