O sorriso
melancólico de Elizabeth me fascina. Dirigimos este velho Del Rey em direção à
Costa Oeste, numa velha cidadela chamada Belle Plage, para tomarmos Pepsi Cola
a beira-mar. De óculos escuros, trajes de veraneio e um velho e bom rock ‘n roll, o vento que nos sopra a
maresia enche nossas almas desse estranho sentimento que descompassa meu
coração. Elizabeth descompassa meu coração. Nos conhecemos num boteco do
Brooklyn, Nova Iorque. Vestia uma jaqueta de couro e tinha os cabelos
desarrumados e os olhos delineados como jamais vira. Sua voz suave percorria o
ambiente como uma delicada sinfonia e encantava a todos, inclusive a mim.
Lembro-me, também, que ao perguntar seu nome, me confrontou a pagar-lhe uma
bebida para que o fizesse. Sorrimos.
Trocamos nossos
números e continuamos uma extensa e divertida conversa pelo celular. Elizabeth
tinha um fabuloso gosto artístico, que me encantou imediatamente quando me
enviou a foto de um filme em cartaz, uma releitura alternativa de um noir famosíssimo. Pedi que comprasse os
próximos ingressos e, antes que ela pudesse explicar noir para um leigo, tinha posto meu casaco, pego minhas chaves e um
táxi direto para o cinema. Saímos tarde da noite do filme direto para um bar
escocês numa área afastada do movimentado centro nova-iorquino. Lá, havia essa
cantora, uma espécie de Nancy Sinatra nascida no gueto preto americano, com
todo o gingado e afetação que capturava a alma de Lizzy e fazia seus olhos
faiscarem. Quando estávamos bêbados, decidimos que o frio ar noturno poderia
nos restaurar os sentidos e, andando em tortas linhas, encontramos alguns
motoqueiros em nosso caminho.
Não que eu tenha
algo a ver com motoqueiros, ou mesmo saiba me portar sobre uma moto, mas Lizzy
achou adequado mexer com eles. Com seu trejeito moleca, se aproximou pedindo
informações e rindo despretensiosamente. Cachorra, pensei. Não me julgue, senti
seus olhos dizerem. Um dos motoqueiros, Dicke, encantado, chamou-a para um
passeio. Naquele dia, voltei só para casa, num táxi, enquanto Lizzy corria na
garupa de um quarentão e, sabe-se lá Deus, se não dormia em sua cama. Mal
acordei noutro dia, três ligações perdidas e algumas mensagens para mim. Liguei
preocupado, mas ao atender a única coisa que conseguia fazer era rir da minha
voz exasperada e meus xingamentos insinceros. Porra, Lizzy, e eu achando que você tava numa enrascada, sua vaca.
Risos.
Combinamos de nos
encontrar no fim da tarde, após alguns compromissos de assessoria de imprensa
que eu possuía para cumpri-los. Durante todo o meu trabalho, não deixava de
pensar em nossa noite tresloucada e nessa amizade sincera que surgira
inesperadamente. Elizabeth Woolridge Grant, você é oficialmente uma
perturbadora da paz; a minha! Nos vimos numa cafeteria moderninha que tocava
bandas indies e um rock ‘n roll psicodélico de vez em quando. Era possível, de
esguelha, perceber as cabecinhas das pessoas se sacudirem, levemente, quando
suas músicas favoritas tocavam. Ela, Lizzy, jamais sacudia a cabeça, mas —
tenho certeza — estava ainda mais absorta nas canções ali tocadas. Absorvia
todas elas com uma sutileza sobremaneira e sorria vez em quando. Que foi?,
perguntei enquanto escorria um pouco de café pela minha barba. Ela riu,
limpou-me e fez careta. Amo essas músicas. Tenho saudades de tocar meu violão. Preciso
tirá-lo do guarda-roupas.
E minhas noites
de inverno nova-iorquinas foram sempre acompanhadas da inestimável presença
dela. De bares em bares, de lojas em lojas, e visitando vários lugares, num
ritmo que há muito não me via. Pouco a pouco, meus amigos abaixaram a guarda
contra a nova participante de nossas reuniões e, em algumas semanas,
conversavam com Lizzy como se o fizessem há muito. E na casa de Jane, em que o
pai guardava um violão solto no estúdio, Elizabeth tomou-o para si e passou a
tocar antigas músicas de Bruce Springsteen e Lou Reed. Foi ali, naquele
momento, que contemplei a melancolia de uma alma tão profunda e desesperadora.
Me choquei. No outro dia, não respondi as mensagens de Lizzy por falta da mais
pura vontade. Não conseguia entender como alguém tão fabulosa pudesse esconder,
omitir, uma tristeza tão reverberante.
Me recuperei,
porém, e decidi que conversaria com ela sobre o que havia sentido. Foi quando,
pela primeira vez, pude conhecer a real Elizabeth, de carne e osso — e alma —
além das noites de botecos e cinemadas. Foi, também, ali que vi surgir dentro
de si Lana del Rey, como uma fênix presa em seu peito tentando se libertar e
estourar em flâmulas. Seus problemas com bebedeira, seus vícios, seus medos,
seus sentimentos; todos despejados sobre mim numa sinceridade crua, violenta.
Arrisquei a perguntar-lhe o que, dentre tudo que sentia, a mantinha em frente,
sem que parasse e desistisse. A música, lambeu os beiços e sorriu tímida. E
tocou uns tolos arranjos arranhando algumas letras letárgicas. Insisti que
investisse, então, na música que tanto gostava. E, desde então, Lizzy vivia a
escrever pequenos poemas e cantá-los nos fins das noites.
Nascemos para
morrer. Essa simples constatação emerge como um iceberg em minha mente, súbita
e explosivamente. A beira-mar californiana é maravilhosa e os pássaros cantam
as mais belas melodias. O sol brilha enérgico e pinta tudo dum dourado puro.
Nascemos para morrer e a beleza de se conhecer a verdade é saber que, portanto,
não devemos temer a morte, ou evitá-la. Não se há urgência em morrer, nem há
beleza em definhar. O luto é a mais profunda dor humana, que toca a alma e nos
purifica desta vida que mal vivemos. A beleza está na vida e em, cientes da morte,
aproveitá-la a cada momento, em cada circunstância. A morte é uma consequência.
A vida, um dom.

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