sábado, 21 de junho de 2014

Uma menina chamada Lizzy, um carro chamado Del Rey


O sorriso melancólico de Elizabeth me fascina. Dirigimos este velho Del Rey em direção à Costa Oeste, numa velha cidadela chamada Belle Plage, para tomarmos Pepsi Cola a beira-mar. De óculos escuros, trajes de veraneio e um velho e bom rock ‘n roll, o vento que nos sopra a maresia enche nossas almas desse estranho sentimento que descompassa meu coração. Elizabeth descompassa meu coração. Nos conhecemos num boteco do Brooklyn, Nova Iorque. Vestia uma jaqueta de couro e tinha os cabelos desarrumados e os olhos delineados como jamais vira. Sua voz suave percorria o ambiente como uma delicada sinfonia e encantava a todos, inclusive a mim. Lembro-me, também, que ao perguntar seu nome, me confrontou a pagar-lhe uma bebida para que o fizesse. Sorrimos.
Trocamos nossos números e continuamos uma extensa e divertida conversa pelo celular. Elizabeth tinha um fabuloso gosto artístico, que me encantou imediatamente quando me enviou a foto de um filme em cartaz, uma releitura alternativa de um noir famosíssimo. Pedi que comprasse os próximos ingressos e, antes que ela pudesse explicar noir para um leigo, tinha posto meu casaco, pego minhas chaves e um táxi direto para o cinema. Saímos tarde da noite do filme direto para um bar escocês numa área afastada do movimentado centro nova-iorquino. Lá, havia essa cantora, uma espécie de Nancy Sinatra nascida no gueto preto americano, com todo o gingado e afetação que capturava a alma de Lizzy e fazia seus olhos faiscarem. Quando estávamos bêbados, decidimos que o frio ar noturno poderia nos restaurar os sentidos e, andando em tortas linhas, encontramos alguns motoqueiros em nosso caminho.
Não que eu tenha algo a ver com motoqueiros, ou mesmo saiba me portar sobre uma moto, mas Lizzy achou adequado mexer com eles. Com seu trejeito moleca, se aproximou pedindo informações e rindo despretensiosamente. Cachorra, pensei. Não me julgue, senti seus olhos dizerem. Um dos motoqueiros, Dicke, encantado, chamou-a para um passeio. Naquele dia, voltei só para casa, num táxi, enquanto Lizzy corria na garupa de um quarentão e, sabe-se lá Deus, se não dormia em sua cama. Mal acordei noutro dia, três ligações perdidas e algumas mensagens para mim. Liguei preocupado, mas ao atender a única coisa que conseguia fazer era rir da minha voz exasperada e meus xingamentos insinceros. Porra, Lizzy, e eu achando que você tava numa enrascada, sua vaca. Risos.
Combinamos de nos encontrar no fim da tarde, após alguns compromissos de assessoria de imprensa que eu possuía para cumpri-los. Durante todo o meu trabalho, não deixava de pensar em nossa noite tresloucada e nessa amizade sincera que surgira inesperadamente. Elizabeth Woolridge Grant, você é oficialmente uma perturbadora da paz; a minha! Nos vimos numa cafeteria moderninha que tocava bandas indies e um rock ‘n roll psicodélico de vez em quando. Era possível, de esguelha, perceber as cabecinhas das pessoas se sacudirem, levemente, quando suas músicas favoritas tocavam. Ela, Lizzy, jamais sacudia a cabeça, mas — tenho certeza — estava ainda mais absorta nas canções ali tocadas. Absorvia todas elas com uma sutileza sobremaneira e sorria vez em quando. Que foi?, perguntei enquanto escorria um pouco de café pela minha barba. Ela riu, limpou-me e fez careta. Amo essas músicas. Tenho saudades de tocar meu violão. Preciso tirá-lo do guarda-roupas.
E minhas noites de inverno nova-iorquinas foram sempre acompanhadas da inestimável presença dela. De bares em bares, de lojas em lojas, e visitando vários lugares, num ritmo que há muito não me via. Pouco a pouco, meus amigos abaixaram a guarda contra a nova participante de nossas reuniões e, em algumas semanas, conversavam com Lizzy como se o fizessem há muito. E na casa de Jane, em que o pai guardava um violão solto no estúdio, Elizabeth tomou-o para si e passou a tocar antigas músicas de Bruce Springsteen e Lou Reed. Foi ali, naquele momento, que contemplei a melancolia de uma alma tão profunda e desesperadora. Me choquei. No outro dia, não respondi as mensagens de Lizzy por falta da mais pura vontade. Não conseguia entender como alguém tão fabulosa pudesse esconder, omitir, uma tristeza tão reverberante.
Me recuperei, porém, e decidi que conversaria com ela sobre o que havia sentido. Foi quando, pela primeira vez, pude conhecer a real Elizabeth, de carne e osso — e alma — além das noites de botecos e cinemadas. Foi, também, ali que vi surgir dentro de si Lana del Rey, como uma fênix presa em seu peito tentando se libertar e estourar em flâmulas. Seus problemas com bebedeira, seus vícios, seus medos, seus sentimentos; todos despejados sobre mim numa sinceridade crua, violenta. Arrisquei a perguntar-lhe o que, dentre tudo que sentia, a mantinha em frente, sem que parasse e desistisse. A música, lambeu os beiços e sorriu tímida. E tocou uns tolos arranjos arranhando algumas letras letárgicas. Insisti que investisse, então, na música que tanto gostava. E, desde então, Lizzy vivia a escrever pequenos poemas e cantá-los nos fins das noites.
Nascemos para morrer. Essa simples constatação emerge como um iceberg em minha mente, súbita e explosivamente. A beira-mar californiana é maravilhosa e os pássaros cantam as mais belas melodias. O sol brilha enérgico e pinta tudo dum dourado puro. Nascemos para morrer e a beleza de se conhecer a verdade é saber que, portanto, não devemos temer a morte, ou evitá-la. Não se há urgência em morrer, nem há beleza em definhar. O luto é a mais profunda dor humana, que toca a alma e nos purifica desta vida que mal vivemos. A beleza está na vida e em, cientes da morte, aproveitá-la a cada momento, em cada circunstância. A morte é uma consequência. A vida, um dom.

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