quinta-feira, 19 de junho de 2014

Os olhos de Giulia

Conheci Giulia de uma forma inusitada. Ela não se lembra, é claro, Giulia não tem memória para essas coisas; ela tem uma mente de profundezas esguias e inatingíveis. Foi numa pizzaria, que nosso primeiro contato começou. E um pedido de desculpas de minha parte, por uma deselegância minha. Desde então, ela me fascinou. Giulia me fascina pela beleza que esconde sob seus olhos castanhos claros, com um leve toque de dourado mel, dependendo do seu humor. Dizem que as pessoas que possuem olhos assim misturados, são as que possuem diferentes personalidades.
Conheço uma dessas personalidades, que se desdobra em inúmeras subpersonalidades e tornou Giulia, para mim, alguém extraordinário. Não por acaso, me apaixonei por essa garota e me senti sortudo por tê-la ao meu lado. Sempre carrega consigo um sorriso (e ele é um pouco torto, se me permite dizê-lo), que esconde atrás de si uma alma que julguei tão entristecida. Não sempre entristecida, nesta melancolia que assombra as outras almas, mas, de certa forma, machucada como um pequeno passarinho que caiu do ninho e quebrou as asas.
São as asas quebradas de Giulia que determinam a cor de seus olhos e o sorriso em sua boca. E esse gosto musical exótico, que me deixa perplexo e, ao mesmo tempo, instigado. São as mesmas asas que pintam seu cabelo neste castanho avermelhado e os enrolam levemente, numa delicadeza ímpar. E estas asas que sempre esconderam de mim, sob abraços apertados e risadas únicas, a Giulia de outras personalidades, que nunca conheci, mas apenas tive pequenos reflexos. Giulia, Giulia. Muitas vezes me esforcei em ajudar a remendá-las, mas nunca tive certeza do resultado final. Giulia sempre me pareceu quebrada, mesmo que inteira em minha frente.
A diferença está que, no fim, temos visões e emoções diferentes. Giulia sabe que, também, ando quebrado, em cacos. E ela consegue ver através dos meus olhos, com aquele olhar cativante que o perfura e suplica para que lhe conte o que há comigo. E eu conto por sentir que, nos braços de Giulia, posso ser verdadeiro, sem que ela realmente se zangue comigo. Giulia faz o que ninguém mais faz: deixou de utilizar palavras e passou a utilizar gestos. E me conquistou como mais ninguém o fez. Com Giulia sou sincero, e sei que a recíproca é verdadeira.
E o mistério que permanece, desta Giulia em camadas, dividida entre muitas Giulias e perdida entre muitos lenços deixados para trás, é que me motiva a continuar tentando ser para Giulia o que ela é para mim, um porto seguro. Tenho medo de que suas asas infeccionem e pouco a pouco matem esse espírito livre que se esconde atrás de seu rosto redondo, tão belo. Tenho medo de que suas asas quebradas a impeçam de alçar os voos que sei querer. Fumo meus cigarros mentolados enquanto observo ela comer e me pergunto todos os dias se está bem. Espero que esteja, penso, sincero. Espero que esteja, pois sem Giulia por perto me sinto cego, perdido entre uma multidão de manequins sem rostos e almas. Giulia tem alma. Mesmo que eu nunca tenha visto este tesouro que ela guarda a sete chaves, posso sentir sua aura irradiar de dentro de seus olhos e por detrás de seu sorriso.
E, agora, Giulia se mantém quieta em seu sofá. Assistia “Clube da Luta”, mas o filme acabou e ela nem piscou seus olhos delineados. São os únicos olhos delineados que, juro!, não carregam essa malícia de outras pretensões. Ela me contou sobre esse antigo homem, que abandonou para trás. Sobre o seu lenço preferido, que também ficou. E fala clara e limpidamente, mas creio haver ali, entre tantas palavras e seus olhos estáticos, um pequeno tom de saudades. Não conheço este antigo homem, nunca o vi. Só sei de suas histórias e de como o sorriso de Giulia era fenomenal, e ainda o é, ao contá-las. Abraço-a forte, como ela me abraçou quando mais precisei. E nos encaramos, nesta cumplicidade nossa. Os olhos de Giulia humanizaram os meus.

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