quinta-feira, 19 de junho de 2014

Uma noite. 6 amigos. Um bar. Uma balada.

Um ode as noites tão belas e tão iluminadas, entre bebidas e cigarros, entre sorrisos e choros, onde as amizades progridem e regressam aos momentos mais puros de um relacionamento. Um ode aos meus queridos amigos, inspiradores deste texto e companheiros desta noite.

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Sentaram-se a mesa do bar e, tão logo apareceu o garçom, pediram uma cerveja. Quem me acompanha na tequila, depois?, perguntou o garoto de rosto fino e olhos travessos. Todos se entreolharam sem dizer palavra alguma, entre o aceitar e o recusar. As noites de inverno são assim, marcadas pelos bares e conversas de mesa; e sempre acompanhadas por petiscos e cigarros. Ao fundo, uma voz rouca cantava algum velho rock n roll e pintava a noite com sua raiva comedida.
Havia tanto o que falarem! Sim, mesmo que se vissem há poucas horas, sempre teriam toneladas de conversas para jogarem fora, ou piadas para contarem e rirem das maiores babaquices. Sim, a mesma amizade que há muito duradoura e longeva. É como se perder da multidão, estar junto deles, como se o tempo parasse de correr normalmente e entrasse num fluxo único e diferenciado. Junto deles, como se a noite transfigurasse num dia.
Bebiam cerveja barata e fumavam cigarros mentolados. Nem todos, é claro, mas, na maior parte do tempo, uma névoa cobria a mesa. E ele estava ali, sentado perto deles e se sentindo como há muito não o sentia: divertido. É difícil sentir-se divertido, ou mesmo animado, quando se pretende viver sob a aura de uma estranha melancolia... uma letargia fatal e um humor noir. Quando nada parece valer o esforço, tudo se faz cinza, igual as madrugadas nas quais se esconde. Acordara disposto, porém, a chacoalhar esse estranho temperamento. Tequila, convenceu-se diante do espelho, é a solução de hoje.
Sabe, a bebida deixa as pessoas mais... humanas, não? Menos comedidas em seus movimentos, às vezes, inumanos por causa de outrem. Desce quieta, sem grandes alardes, para pouco a pouco manifestar numa súbita explosão interna, gradual externamente. Seus olhos pareciam movimentar-se de uma forma descontraída enquanto tragava fortemente o cigarro e ria de alguma besteira qualquer; sentia-se leve. Foi quando lhe chamaram para o canto. Quer maconha?, perguntaram com esse ar de inocência que irrompe das pessoas e suas pretensões. Claro, e por que não?
Caaaaaaara, conseguiu falar, entre uma tosse e outra, enquanto fumava. Tudo rodopiava levemente sob a brisa que soprava seus rostos. Pegou o beque, tragou fundo sentindo o gosto descer-lhe a garganta, enjoando-o. Soltou a fumaça com um sorriso e tossiu novamente. Tudo girava e sentia que, em seus dedos, poderia girar como a um só com todos. E, como que se atraído por um imã invisível, caminhou cambaleante entre os inúmeros rostos que o observavam, e riam, e o julgavam, e o ignoravam. Todos ficaram para trás, porém, e seus pés o guiavam para a beira da avenida, sob um intenso céu estrelado.
Deitou-se de imediato no chão, mas pensou que fosse uma rede. Macia, móvel, em que tudo se mexia, mas que o prendia como uma teia. I don’t know what I need, cantou, sozinho, olhando o nada como se visse a tudo. Nesses momentos, o mundo se acalma e, apesar da ansiedade por saber que se está sob o efeito dalgo, parece funcionar perfeitamente. They judge me like a picture book by the colors like they forgot to read. Foi então que ele se aproximou, com passos leves, e sentou-se ao seu lado. Parecia consternado. Tá tudo bem? Silêncio. Sim. Silêncio. Não precisavam realmente conversar, se conheciam há muito para saberem da situação de ambos. Era, ao menos, reconfortante ter sua presença ali, longe de todos que continuavam a conversar na mesa.
A noite é uma criança. Todos pareciam cansados, de olhos vermelhos e bocas enormes. Todos bocejando. Acho que está na hora de ir, disse ela, a amiga, com um rosto já desanimado pelo sono. Mas sentia em seu corpo, em cada fluxo sanguíneo, a animação que lhe percorria a espinha e transformavam seus opacos olhos em vidros aquosos e límpidos. Vou ficar, protestou, entre um gole e outro. Não tardou para que fossem embora, sobrando apenas ele e um último amigo.
Acho que você precisa de uma outra vibe. E arrastou-o para o carro. Música alta. Cigarros. A balada era uma de esquina, de cara arrumada e muitas cores. Abrir a porta era como atravessar um portal transcendental para uma dimensão onde as coisas eram feitas de som, e cores, e batida. Tequila. Dança. Uma voz robótica que cantava alguma coisa. Dança. E dançava, de início recatado, para terminar sem pudor algum, sem qualquer restrição. Em alguns momentos, o que precisamos é ligar uma música alta e simplesmente dançar. Dançar como o fruto de um poder interno que expele sua força em seus membros. Tequila.
É assim que o tempo passa em sua maleável existência, ora lento ora rápido. Impiedoso em sua vontade. Iremos fechar, disse a moça. Já? Eram cinco e meia da manhã. Se entreolharam assustados, mas, obedecendo a ordem da segurança, deixaram a balada. Cada minuto no carro, era um minuto de despedida de uma noite que prometera muito, e cumprira ainda mais. Talvez, uma noite para ser recordada com muito carinho, sempre que se olhar para trás. E voltando ao bar, já fechado, onde seu carro o esperava, despediu-se.
Beijou-lhe o rosto levemente, sentindo seu perfume. E, virando-se, atravessou a avenida. O vento lhe cortava o rosto, mas não se importou. É como um despertador que lhe importuna ao dizer que você está vivo. Eu me sinto vivo. Fora do quotidiano. E com um pálido sorriso, meio sóbrio meio burro, respirou. O outro dia o espera.

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